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Milano – San Remo 1982: A Primeira Cipressa

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Durante muitos anos, e ao contrário de outras provas com as suas particularidades especiais, a Milano – San Remo era uma “mera” prova de endurance. Longas distâncias e uma única dificuldade no icónico (e atualmente, meramente simbólico) Passo del Turchino eram mais que suficientes para desfazer o pelotão a um grupo reduzido, ou até somente um atleta, chegar na frente e disputar a vitória entre si. Porém, com o avanço da ciência, da tecnologia e até com a profissionalização no desporto, a falta de dificuldades da “La Primavera” deixou de ser suficiente para criar separação nos homens do pelotão internacional. Em 1960 adicionou-se o Poggio di San Remo, depois de várias edições com poucas vitórias italianas e com várias chegadas em grupos numerosos, resultando em vários anos de chegadas a solo ou grupos bastante reduzidos. Apesar de tudo, ao longo dos anos a presença do Passo del Turchino, os vários Capos (ou Capi, em italiano) e o Poggio passou a ser insuficiente, com novamente vários grupos numerosos ou até pelotão a disputarem a vitória. 

Para combater isto, Vincenzo Torriani, lendário diretor de corrida do Giro d’Italia e outras provas transalpinas, decidiu adicionar uma nova subida, na expetativa de endurecer o final da “Classicissima”, dando-nos a Cipressa, uma subida de quase 6km a 4%, aumentando também a distância de prova, fixando-a nos 295 quilómetros. A primeira edição desta nova configuração da Milano – San Remo foi em 1982. 

Os italianos, à partida, eram os favoritos, e a introdução da Cipressa aumentava essa percepção, pois além do percurso mais duro, nos últimos largos anos, poucas vitórias italianas haviam ocorrido. Giuseppe Saronni, Francesco Moser, Moreno Argentin ou Silvano Contini eram as apostas da casa. Grandes nomes desta altura como Roger de Vlaeminck, Freddy Maertens, Jan Raas ou até Fons de Wolf, vencedor da edição de 1981 encontravam-se na linha de partida. 

Fons de Wolf a celebrar a vitória de 1981 na “Clássica da Primavera”. Retirado de bikeraceinfo.com

A edição de 1982 começou como hoje é esperado e normal. Num dia muito chuvoso e cinzento, uma grande fuga formou-se na frente e foi passando as dificuldades na frente com uma vantagem larga, mas com expetativa no pelotão de ir buscar os homens na dianteira já nas últimas dezenas de quilómetros de aproximação a San Remo. Após o Passo del Turchino e os Capi, chegou a Cipressa pela primeira vez. Com as más condições temporais (que foram melhorando ao longo do dia quanto mais da costa se aproximavam os ciclistas), algumas desistências da corrida e da fuga, chegávamos à entrada da Cipressa com 3 homens na frente e com vantagem de 7 minutos sobre o pelotão dos favoritos, que, entretanto, já tinha perdido alguns elementos importantes, sendo o mais importante Giuseppe Saronni, durante a descida do Passo del Turchino. A vantagem da fuga também era explicada por algumas tensões nas equipas presentes. A equipa de Moser não queria perseguir sozinha, outras equipas não queriam ser a única a ajudar a equipa de Moser, e até rivalidades entre os ciclistas líderes das várias equipas presentes permitiram a larga vantagem dos 3 homens da frente, enquanto no pelotão ainda havia a crença que chegariam à frente da corrida. 

 Os homens da frente, que nunca esperavam se encontrar nesta situação, eram o italiano Claudio Bortolotto e o duo francês de Alain Bondue e Marc Gomez.  

Bortolotto, com os seus 29 anos e no seu auge físico, era um nome conhecido no mundo do ciclismo, ao contrário dos colegas franceses. Tinha conquistado 3 camisolas de líder de montanha, vários top-10 e ainda duas etapas no Giro d’Italia nos anos anteriores. Tinha também etapas ganhas em provas mais pequenas e algumas provas de 1 dia italianas no seu currículo. Apesar disso, entraria na fuga apenas para ajudar a corrida de Saronni, conseguindo com que a sua equipa, a Del Tongo – Colnago, não tivesse de trabalhar na frente do pelotão durante a longa prova.  

Claudio Bortolotto, na altura na equipa Sanson, a celebrar a vitória no GP Industria e Commercio di Prato à frente do colega de equipa Mario Beccia. Retiarado do Facebook: Campioni del Ciclismo

Alain Bondue, da equipa da La Redoute – Motobecane, era um nome desconhecido do grande público. A dar os seus primeiros passos no mundo do ciclismo, o então jovem francês de 22 anos não tinha ainda grandes resultados na estrada, mas era Prata olímpico e Campeão Mundial de Perseguição de pista e dispunha de uma boa ponta final, mas acima de tudo uma excelente capacidade no contrarrelógio e enquanto rolador. 

Alain Bondue no Vêlodrome de Roubaix, com a sua camisola de Campeão do Mundo de Perseguição. Retirado de: alchetron.com

Marc Gomez era o mais desconhecido de todos. O francês estava a correr a sua primeira época enquanto profissional no ano em que faria 28 anos pela modesta equipa da Wolber – Spidel e encontrava-se na fuga para mostrar os patrocinadores. Um bom trepador, havia-se destacado nos Campeonatos Amadores de França e também no Campeonato Mundial de Amadores, para além de boas demonstrações de força e vitórias em provas menores que lhe valeram o primeiro contrato na elite do ciclismo. 

“Cromo” de Marc Gomez da equipa Wolber – Spidel em 1982. Retirado de picclick.fr

À entrada, pela primeira vez, da Cipressa, o favorito do público era Bortolotto, por virtude de ser italiano. Atrás várias movimentações foram surgindo nos últimos 30 quilómetros de prova, mas os favoritos nunca chegaram a lutar pela vitória, sendo que começando a Cipressa, Gomez impôs o ritmo e chegou a atacar. No final da subida era mesmo o novato no mundo dos profissionais a se isolar, com uma mão cheia de segundos de avanço sobre Bortolotto e Bondue. 

No rápido troço de prova entre o final da descida da Cipressa e o início do Poggio, Bondue deixou o italiano Bortolotto perseguir, sabendo agora que carregava a esperança caseira de recuperar a vitória na “Primavera”.  Sentindo fraqueza no italiano, foi Bondue que atacou e chegou rapidamente a Gomez, formando um duo gaulês na frente tremendamente inesperado e com valias diferentes.  

Bortolotto ficaria mais para trás e, por recomendação do seu diretor desportivo, seria apanhado pelo grupo dos favoritos que ainda acreditava ser possível recuperar a distância para o duo da frente, apesar de vários ataques dos favoritos e desconfianças mútuas não permitirem uma redução do tempo para a frente da corrida tão rápida quanto desejada. 

À entrada do Poggio, Bondue era o favorito se passasse com o seu compatriota na frente. A sua experiência no ciclismo de pista e devido a ser um bom rolador, ao contrário de Gomez, deu-lhe a confiança de não passar pela frente e simplesmente seguir na roda até ao final do Poggio. Gomez tentaria algumas mudanças de ritmo, mantendo sempre ritmo alto mesmo quando não atacava, mas Bondue estava num grande dia e não cediria na curta subida. 

Bondue e Gomez durante a Milano – San Remo de 1982. Retirado da revista “L’Équipe“.

O momento decisivo da prova dá-se no Poggio, mas no começo da descida. Bondue, numa tática habitual de mostra de força, passa por Gomez e tenta fazer a primeira curva da descida na frente. Apesar do tempo em San Remo estar melhor que no restante percurso da prova, ainda estaria húmido e o medalhado olímpico de pista acabaria por cair. Gomez continuou descida abaixo, conquistando ao final da descida um total de cerca de 10 segundos sobre o seu compatriota. Apesar da vantagem de Bondue a perseguir, Gomez manteve a vantagem e conquistou, no seu primeiro ano enquanto profissional – numa corrida em que apenas tinha ido para a fuga mostrar a camisola –, a sua maior vitória da carreira. O ciclista francês com o braço levantado, enquanto o público italiano aplaudia de forma modesta o vencedor, tornou-se uma foto icónica do ciclismo do início dos anos 80. 

Marc Gomez a celebrar na meta a vitória na “Classicissima”. Ao fundo, o compatriota Bondue a finalizar em sgundo lugar. Retirado do Twitter / X: @TousPoulidor

Alain Bondue tornar-se-ia um dos eternos outsiders à vitória na Paris – Roubaix, tendo feito um terceiro e um décimo lugares em anos seguidos. Ganharia também uma etapa na Vuelta, e colocar-se-ia sempre bem em esforços de contrarrelógio curtos. Reformar-se-ia, no final de 1987, com 28 anos. 

O terceiro lugar caiu ao sprint no grupo dos favoritos – já a 2 minutos do vencedor – para um muito jovem Moreno Argentin, que viria a ganhar de tudo um pouco na carreira, mas curiosamente nunca a Milano – San Remo ou o Giro d’Italia, numa carreira que se destacam as 4 Liége – Bastogne – Liége, um Mundial de Estrada, 3 Fléche – Wallonne, e ainda 13 etapas no Giro d’Italia, 2 no Tour e um Giro di Lombardia. 

Claudio Bortolotto finalizaria em sexto, mas arrepender-se-ia de não tentar se manter escapado e conquistar um pódio na “Primavera”. Teria apenas mais 2 anos de carreira, conseguindo ainda uma vitória no Tour of Deutschland, mas seria quase sempre relegado para uma tarefa de apoio dos líderes da sua equipa. 

Para Marc Gomez, seria o início de uma carreira profissional curta, mas com várias vitórias importantes, como três etapas na Vuelta a España e até um Campeonato Nacional Francês de Estrada. A última das vitórias na carreira seria em Ciudad Rodrigo, curiosamente numa etapa da Volta a Portugal de 1988.  

A edição da Milano San – Remo de 1982 foi uma edição histórica e cheia de primeiras. A primeira, e agora icónica, Cipressa. Mas também a primeira vitória, na primeira participação, na primeira época de profissional de Marc Gomez, que apenas foi para a fuga para mostrar a camisola da equipa. 

Foto após o pódio de Gomez. Retirado de rouleur.cc

Abaixo, vídeo resumo da prova: