Até 1995, ano da última conquista de um francês da geral de uma grande Volta, por Laurent Jalabert, a Vuelta a España era corrida entre o meio/final de Abril até meio de Maio, o que fazia que a maior parte dos ciclistas tivesse de escolher entre a Vuelta e o Giro, que costumava começar poucos dias após fim da prova espanhola. Porém, em 1977, a Flandria, e o seu líder, Freddy Maertens, decidiram participar em ambas. Havia um motivo muito óbvio para tal: enquanto as organizações do Giro e da Vuelta pagavam às equipas para participar, o Tour tinha uma “entrance fee”, e apenas as equipas que pagassem esse valor poderiam participar. Devido a isso, o Tour teve apenas 10 equipas, enquanto o Giro apresentou 14 equipas em prova. A Vuelta sofria de dificuldades financeiras na altura, e, portanto, a startlist apenas contou com 7 equipas.
Focando no Giro de 1977 em concreto, uma grande startlist era esperada. A Flandria trazia, como antes mencionado, Freddy Maertens, recentemente vencedor da Vuelta – vencendo umas históricas 13 etapas –, mas também Michel Pollentier acompanhava o líder da formação belga, também ele vindo de uma vitória de etapa na Vuelta. Também saídos da Vuelta vinham Miguel María Lasa da Teka que foi segundo lugar na corrida espanhola. O quinto lugar, José Luis Viejo, da Kas, também se encontrava na startlist. O top-7 inteiro do ano anterior do Giro d’Italia também se encontrava à partida, em Monte di Procida, nos arredores de Nápoles. Apesar disto, os principais favoritos continuavam a ser homens da casa. Felice Gimondi, da equipa da Bianchi e já 3 vezes vencedor da prova italiana e vencedor no ano anterior, era um dos principais favoritos à vitória, assim como o já consagrado, mas ainda no pico das suas forças, Francesco Moser, da Sanson e quarto lugar no ano anterior, que procurava o seu primeiro Giro. Também Gianbattista Baronchelli, um jovem corredor de provas de etapas, que já tinha sido segundo atrás apenas de Eddy Merckx por apenas 12 segundos em 1974 e quinto em 1976, e que vinha de vitórias no Tour de Romandie assim como no Giro dell’Appennino, era outro dos grandes favoritos à prova italiana pelos media local.

Retirado de: levif.be
Olhando de fora, os perfis da prova italiana assentavam especialmente aos perfis de Moser e Maertens, dois especialistas ao sprint e no contrarrelógio, mas ainda assim com capacidades suficientes na montanha para não perderem muito tempo para os trepadores mais puros. Com 1 prólogo e dois contrarrelógios de cerca de 30 quilómetros, além de vários dias de competição partidos entre a manhã e a tarde – etapas de designação “a” e “b” –, levou a um número quase surreal de 27 etapas, das quais 24 em linha. Juntando a isto, várias das etapas com subidas categorizadas não apresentavam chegadas em alto, mas sim epalhadas durante o percurso, ora demasiado longe para diferenças reais serem feitas, ora demasiado fáceis para deixar os favoritos para trás, o que levou a várias chegadas em grupos reduzidos com os ciclistas antes mencionados presentes. Ainda assim, os apaixonados pela modalidade esperavam os dias 7 a 9 de junho, onde 13 subidas categorizadas espalhadas pelos 3 dias esperavam os ciclistas e iam ajudar a definir a geral antes de um contrarrelógio no dia 11 de junho que iria ajustar as últimas contas para descobrir o vencedor da prova italiana. Algo que poderia prejudicar as contas a Maertens e Moser era o facto de, ao contrário da Vuelta, não haver bonificações. Na Vuelta de 1977, Maertens praticamente conquistou todo o tempo de vantagem que lhe permitiu ganhar a geral da prova nas bonificações.

Retriado de: archivio.giroditalia.it
A “Corsa Rosa” de 1977 começou com o prólogo em Monte di Procida e desde cedo Maertens e Moser mostraram a superioridade esperada. O belga venceu a primeira etapa com 3 segundos sobre Moser e em terceiro lugar, vinha, já distante, Knut Knudsen a 20 segundos, e a seguir todos os restantes favoritos, perdendo já margem considerável para o belga e o italiano. Começava aqui, a 20 de Maio, a Flandria-fest.
Tal como na Vuelta, Maertens foi dominante. Juntando-se ao prólogo, a primeira etapa em linha. No terceiro dia de competição, o primeiro com etapas “a” e “b”, seguiram-se um 5º de manhã e e um 2º de tarde. Até a primeira etapa para a geral, a chegada ao Monteluco em Spoleto ao sexto dia de prova, e sexta etapa em linha, seguiu-se mais uma vitória. Em 7 etapas no total (prólogo incluído), Maertens já levava 3 etapas “no bolso”. Ainda assim, na chegada a Monteluco, seria Moser a assumir a “Maglia Rosa”, depois de Maertens ceder 20 segundos para os maiores favoritos para a geral, e chegar a quase 1 minuto de Mario Beccia, o vencedor da etapa no dia. Nos 3 dias seguintes, Freddy esteve imparável. 2 vitórias no mesmo dia, no dia seguinte à chegada a Monteluco, nova vitória no dia seguinte, e ainda uma vitória na chegada ao Circuito do Mugello levantava a parada para 7 em 11. Porém, foi neste mesmo sítio que o Giro do belga acabou, e até certo ponto, começou o fim da carreira da Maertnes.

Retirado de: archivio.giroditalia.it
A chegada ao circuito do Mugello foi uma das várias chegadas neste Giro que tendo algumas dificuldades no percurso, ficavam distantes do local de meta, o que proporcionava uma disputa pela etapa ao sprint. Na reta da meta e partida do emblemático circuito de motociclismo, Maertens e Rik van Linden – um dos melhores sprinters belgas dos anos 70 –, disputaram a etapa, e a roda da frente do segundo tocou na roda traseira do primeiro, o que levou à queda, e posterior desistência da prova, de ambos. A Maertens foi atribuída vitória na etapa, com van Linden a ficar nos registos históricos em segundo. O decaimento e “o ponto” de viragem da carreira do melhor ciclista do ano até então começa aqui. Esta violenta queda levou a uma fratura nos pulsos – que nunca foi recuperada a 100% –, e a que o próprio ciclista ficasse inconsciente no momento do impacto. A Flandria considerou desistir da prova, mas já consciente, Maertens pediu aos colegas que continuassem em prova. E a boa hora o fizeram.
Se até este momento a Flandria estava apenas focada em Maertens, a verdade é que além deste trazia um ciclista apontado a um bom resultado na geral do Giro. Michel Pollentier, já atrás mencionado vindo de um sexto na geral da Vuelta, tinha começado bem o Giro e no dia a seguir à desistência de Maertens começou o seu espetáculo no Giro. Já vindo de alguns bons resultados na prova, encontrava-se em quinto no momento de desistência do seu colega, a menos de 1 minuto da maglia rosa de Moser.
A etapa no dia seguinte às chegadas no Circuito de Mugello traziam um contrarrelógio entre Lucca e Pisa de 25 quilómetros e enquanto Knudsen dominava, colocando Moser a mais de 1 minuto da distância na etapa, apenas Pollentier, dos homens da geral, minimizava perdas para o italiano e deixava o belga a 55 segundos de distância do italiano. Até ao final dessa semana, mais nenhuma etapa ameaçava causar diferenças na geral.
A etapa 15 – aparece nos meios oficiais como 12 devido às várias meias etapas durante a prova – abria nova semana de corrida, e o dia da chegada a San Giacomo di Roburent trazia algumas dificuldades para o pelotão da prova italiana, e Pollentier começou a se mostrar o melhor trepador entre ele e Moser, começando a recuperar o tempo de atraso, eliminando 33 segundos da desvantagem que trazia. O único homem na classificação geral a menos de 1 minuto de Moser era Baronchelli, que teria que procurar ganhar tempo antes do contrarrelógio decisivo.

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Além da corrida pela geral, a Flandria conseguia sempre arranjar maneira de ganhar etapas e se mostrar presente na corrida, com Marc Demeyer a ganhar mais 2 etapas (e dois segundos lugares) para a equipa belga entre as etapas 16 e a 20, que não tiveram implicações para a geral e que foram disputadas entre fugas e sprints no pelotão compacto.
Mas com o dia 7 de Junho vinha a etapa 21, e o primeiro dos 3 dias decisivos da Corsa Rosa na montanha. Com Moser na liderança, Pollentier a 22 segundos, e Baronchelli a 52 segundos, os tiffosi esperavam ver a sua maior prova caseira ter também um vencedor caseiro. O primeiro dia tratou de partir os corações dos homens da casa. Apesar de no Col Drusciè, nas proximidades da icónica localidade de Cortina d’Ampezzo, o vencedor até ter sido italiano, Giuseppe Perletto, Baronchelli perdia 2 minutos para Pollentier, que chegava a 10 segundos do vencedor da etapa, e também Moser cedia a rosa para o belga, ficando a curtos 3 segundos de segurar a camisola da liderança.
A etapa seguinte partia de Cortina d’Ampezzo e acabava em Pinzolo. Com 3 contagens de montanhas durante o dia, Baronchelli mostrou os seus dotes de trepador e tentou reentrar na luta pelo Giro. Porém, um Pollentier em super forma seguiu o italiano até a chegada, já em plano, em Pinzolo, sendo batido pelo italiano ao sprint. No que mais lhe importava, porém, tinha ganho. Moser tinha passado dificuldades na última subida do dia e cedido terreno para o duo da frente, chegando a 1min25s integrado num grupo com outros membros do top-10 e passava a estar agora a 1min28s da camisola rosa. Em Itália, ainda assim, era esperada uma reviravolta. Ainda faltava uma etapa de montanha e o contrarrelógio beneficiava Moser.

Retirado de: vintagefiets.be
A etapa com saída em Pinzolo e chegada a San Pellegrino Terme foi mais um dia com várias subidas e à fuga foi permitida disputar a etapa. Na geral, Pollentier aguentou novamente os ataques dos rivais e chegou integrado num grupo com vários homens importantes da geral. Novamente, Moser vacilava e perdia mais 36 segundos. Antes do contrarrelógio final, Moser estava a 2 minutos e poucos segundos de Pollentier na geral, e já sabia que só um milagre lhe permitiria lutar pela vitória do Giro, pois apesar de ser um excelente contrarrelogista, o belga também fazia da luta contra o tempo a sua grande arma.
No circuito em Binago, Pollentier foi mais uma vez implacável e ganhou a etapa, a última da equipa no Giro, com um avanço de 30s sobre Moser, e mais de um minuto sobre Knutsen.
Na chegada a Milão, num último dia para a consagração, os tiffosi, equipas e atletas italianos tiveram que ver novamente um belga no topo da “sua” prova, 3 anos depois do último dos 5 triunfos de Eddy Merckx.
Para Pollentier seria a maior vitória em provas por etapas. Faria ainda mais 2 pódios na Vuelta na fase final da carreira, e despedir-se-ia da prova espanhola no seu último ano de carreira com uma etapa. Ganharia, em 1980, a Ronde van Vlaanderen, curiosamente à frente de Moser, na altura campeão italiano, e de Jan Raas, Campeão do Mundo e Campeão da prova em título.

Retirado de X: Miroir du Cyclisme
Para Moser, foi a primeira de grandes decepções no Giro até conseguir finalmente ganhar em 1984, num ano em que tal nem era esperado. Baronchelli, a quem era esperado ganhar um Giro, especialmente depois das primeiras participações com resultados muito entusiasmantes, acabaria por se tornar um habitué em vitórias de etapa e finalizações no top-5 da geral da prova italiana, mas nunca a vencendo. Ganhou porém provas por etapas de uma semana de alto nível, nunca uma Grande Volta, e muitas provas de 1 dia, das quais se destacam 2 Lombardia.
Ao final do dia, a participação da equipa belga em Itália rendeu 7 vitórias de etapas de Maertens, 2 de Demeyer, 1 de Pollentier, e também a geral da prova italiana por este último. Juntando-se a isto, também foram conquistados mais 9 lugares no pódio em etapas diversas. 10 etapas em 27 etapas (prólogo incluído), 9 etapas disputadas não vencidas, e praticamente sempre o foco da corrida, primeiro com Maertens e finalmente com Pollentier. Uma verdadeira Flandria-fest.

Retirado de: vintagefiets.be
Imagem de capa: archivio.giroditalia.it


