Ganhar um Monumento é complicado, seja para a maior parte dos ciclistas seja para a maior parte das equipas. Seja por uma questão de talento, tática e, por vezes, azar, um Monumento é na maior parte das carreiras, a maior vitória de uma vida. Uma equipa vencer, fazendo 1º e 2º é mais raro e ainda mais difícil. Completar um pódio parece impossível, mas aconteceu, num espaço curto de tempo, na mesma prova – teoricamente a mais difícil de o fazer – três vezes num espaço de 6 anos. O truque para tal, parece mesmo ter Wilfried Peeters na equipa.
Num ciclismo em constante evolução, os anos 90 no ciclismo parece que tiveram várias fases e várias estrelas cometa que apareceram tão rápido como desapareceram. Na ponta oposta, uma constante da década foi Johan Museeuw, o “Leão da Flandres”, um dos maiores classicómanos de sempre, especialmente nas provas com empedrado.

Retirado de: wikipedia.com
Em 1996, o belga encontrava-se na estrutura italiana da Mapei, que privilegiava provas de um dia (apesar de contar na equipa com Tony Rominger – vencedor de 3 Vueltas e 1 Giro). Convém apontar que nos últimos anos desta estrutura italiana, já um outro patrocinador, atualmente clássico e que assumiu esta estrutura, juntou-se. Trata-se, claro, da QuickStep, que manteve o foco da equipa nas provas de um dia e já em 1996 era o diretor desportivo da equipa o quase eterno Patrick Lefevere, apenas trocando o foco mais pró-italiano, enquanto Mapei, por uma base mais composta por belgas, enquanto QuickStep. Ainda assim, as várias iterações da QuickStep ao longo dos anos foram sempre uma mistura grande de nacionalidades.
Voltando a 1996, a equipa da Mapei procurava manter o domínio das provas de um dia, especialmente as da Bélgica e do Norte de França. Em 1995, com Museeuw tinham ganho a Ronde van Vlaanderen e com o italiano Franco Ballerini a Paris – Roubaix. Tinham também, para mostrar a versatilidade e enorme qualidade da equipa, vencido o Giro d’Italia com Tony Rominger, feito 2º lugar na Vuelta por Abraham Olano – que venceria a Grande Volta espanhola em 1998 –, e ainda um segundo lugar na Lombardia por Daniele Nardello. No primeiro dos grandes objetivos de 1996, a Ronde van Vlaanderen, o azar bateu à porta da equipa. Johan Museeuw faria terceiro no dia depois de ter problemas mecânicos que não o permitiram seguir com o vencedor, Michele Bartoli, num dia em que já tinha mostrado ser um dos mais, senão mesmo o mais forte, em prova.

Retirado de: bikeraceinfo.com
Para não haver dúvida nem percalço, e impor o seu domínio na prova, a Mapei enviou ao “Inferno do Norte” uma equipa “all-star”. Além de Museeuw – que na altura era já duas vezes vencedor da Ronde van Vlaanderen, do Paris – Tours, duas etapas no Tour de France, além de vários pódios na Ronde, em San Remo e até em Roubaix –, enviou também Franco Ballerini – vencedor do ano anterior e também vários pódios em Roubaix nos anos anteriores e muitos top-5 em provas que envolvessem qualquer tipo de empedrado. Acompanhavam-nos uma armada belga e italiana nos quais se incluíam, por ordem de numeração da equipa, Gianluca Bartolami, Bart Leysen, Wilfried Peeters, Tom Steels, Andrea Tafi e Ludwig Willems. Nestes nomes que disse atrás encontram-se vencedores de várias etapas de Grandes Voltas, Monumentos, mas acima de tudo, de todo o tipo de provas de um dia.

Retirado de: cyclingflash.com
Apesar disto, à partida, não se previa passeio para a equipa da Mapei. Na startlist encontrava-se Andrei Tchmil, que tinha ganho o “Inferno do Norte” em 1994 e feito segundo em 1995 e vinha de bons resultados no ano de 1996. O italiano Fabio Baldato vinha de pódios na Gent – Wevelgem e na Ronde van Vlaanderen, e ainda em 1994 já tinha feito segundo lugar atrás de Tchmil. Viatcheslav Ekimov era outro dos favoritos, vindo de bons resultados nas provas de empedrado nos últimos anos. Outro dos favoritos era Olof Ludwig, que corria a sua última época enquanto profissional e já tinha pisado o segundo e o terceiro lugar do pódio, mas procurava ganhar o paralelo do vencedor. Mas, para vencer a Paris – Roubaix, nem sempre a força e as táticas são o fator decisivo.
Às vezes a sorte decide “A Rainha das Clássicas”, e a Mapei não quis perder o paralelo para a sorte. No dia, a Mapei jogou taticamente ao colocar Peeters e Willems na fuga, obrigando as restantes equipas a perseguir, com a T-Mobile de Ludwig a imprimir um ritmo tão elevado que antes das zonas decisivas da corrida, já o grupo dos favoritos tinha somente 40 ciclistas. Com vários ataques e tentativas de fuga – até Museeuw chegou a estar na frente a mais de 100 quilómetros da meta –, chegava ao primeiro setor de 5 estrelas um pelotão numeroso e foi aqui que a Mapei decidiu dinamitar a corrida no icónico Trouée de Arrenberg, e formou um grupo de cerca de 20 ciclistas, nos quais se incluíam Tafi, Bartolami, Ballerini e Museeuw, que assumiram as despesas da corrida. Ao longo dos vários setores que se iam ultrapassando, os homens da Mapei iam aumentando o ritmo e eliminando pouco a pouco os rivais até se isolarem Museeuw, Tafi e Bartolami na frente a pouco mais de 80 quilómetros do fim. Ballerini faltou no grupo da frente pois num espaço de 10 quilómetros acabou por furar 3 vezes.

Retirado de: knack.be
Até ao fim, a maior emoção pela vitória seria… via telefone. Com uma vantagem muito confortável sobre os perseguidores – Ballerini e Stefano Zanini, da Gewiss – o presidente das operações da Mapei, Georgio Squinzi, ligaria a Patrick Lefevere (que estava no carro que acompanhava os 3 homens da frente) e ordenou como queria que a equipa cruzasse a meta no Velódromo de Roubaix, e mesmo com Museeuw a furar a 8 quilómetros do fim, os colegas italianos esperaram por ele e cumpriram com as ordens superiores. Ao final do dia a Mapei fez 1º, 2º e 3º com Museeuw, Bortolami e Tafi, respetivamente. Em 5º lugar ficou Ballerini, que devido a azares não conseguiu tornar esta epopeia ainda mais época.

Retirado de: welovecycling.com
Nem para a Mapei, nem para Museeuw, seria a única vez que participariam num 1-2-3 em Roubaix. Em 1999, a Mapei repetiria a “dose”, com Tafi a ser o vencedor dessa vez em circunstâncias de corrida bem diferentes. Em 2001, e também em circunstâncias distintas, foi a equipa da Domo que preencheu o pódio, e tal como a Mapei também ainda colocou outro ciclista em quinto. Este outro ciclista foi Wilfried Peeters, que fez parte das 3 formações que fizeram pódios completos num espaço de 6 anos.


