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Volta à Flandres 1992: Ronde van VlaanDurand

Todas as gerações de ciclismo têm os seus heróis. O imaginário global do ciclismo tem os seus grandes nomes bem definidos, recordados e acarinhados. De Costante Girardengo a Tadej Pogačar, passando por Alfredo Binda, Gino Bartali, Fausto Coppi, Eddy Merckx, Bernard Hinault ou Miguel Indurain, recordamos sempre os ultra campeões do desporto – em italiano os “campionissimos” – que com grandes vitórias, tanto em prestígio como em número, aparecem como aliens intocáveis e figuras quase mitológicas do desporto. 

Pelo meio, essas mesmas gerações têm nomes que acabam por desaparecer e ficar como nota de rodapé. Desde vencedores de monumentos, Grandes Voltas, ou até outras provas importantes, o relativo pouco volume do seu CV acaba por os fazer desaparecer do imaginário coletivo do fã do ciclismo. Mas alguns desses atletas perdurarão sempre na mente de quem os viu. Para a minha geração, que começou a ver ciclismo no início dos anos 2010, Thomas Voeckler, Pierre Rolland e até Johnny Hoogerland ficarão sempre associados ao Tour de 2011, quase mais até que o próprio Cadel Evans e os irmãos Schleck, por exemplo. 

Thomas Voeckler no Col du Galibier no Tour de France 2011.
Retirado de: telegraph.co.uk

Para quem começou a acompanhar ciclismo no final dos anos 80 ou início dos anos 90, Sean Kelly, Greg Lemond, Moreno Argentin, e especialmente Miguel Indurain trarão sempre saudades – e no caso do espanhol até algumas nomeações para melhor contrarrelogista de todos os tempos. Um nome mais de culto, ainda hoje acarinhado e que conseguiu escapar ao apagar do tempo é quem dá o nome ao artigo de hoje: Jacky Durand. 

Chegados a 1992, e no terceiro ano de profissional, Durand era um ciclista desconhecido pela grande maioria do público e até do próprio pelotão profissional. A correr pela equipa da Castorama, chegaria a esta edição da Ronde van Vlaanderen sem qualquer pretensão. Um rolador e contrarrelogista, seria enviado para a Bélgica com a equipa B da Castorama, que tinha no mesmo dia provas em França que considerava mais possíveis de ganhar, e também mais importantes para a equipa, também ela francesa. 

Os 260 quilómetros de prova foram palco de uma luta intensa até quase ao fim da primeira hora de corrida pela fuga do dia, quando finalmente 4 ciclistas se conseguiram destacar na frente. Jacky Durand era um deles, e era acompanhado por Patrick Roelandt e Hervé Meyvisch, dois belgas virtualmente desconhecidos e sem resultados, mas especialmente pelo suíço Thomas Wegmüller, um suíço com um CV bastante composto, mas que se encontrava para ajudar Sean Kelly, que procurava ganhar a Ronde, o único Monumento que lhe faltou na carreira. Enquanto Durand estava ainda numa fase inicial da carreira, com 25 anos, Wegmüller tinha já 31 anos e um palmarés que inclua um segundo lugar na Paris – Roubaix de 1988, e várias provas de 1 dia com algum prestígio. Como curiosidade, a sua última vitória profissional seria na Volta a Portugal de 1993. 

A fuga, que tantas dificuldades teve em se formar, passou largos quilómetros com uma curta vantagem de 30 segundos devido à presença de Wegmüller na frente, eventualmente conseguiu respirar e ganhar (muito) tempo, quando as equipas da Buckler e da Panasonic, de favoritos como Edwyn van Hooydonck ou Maurizio Fondriest (que curiosamente acabariam em terceiro e quarto lugar), se desentenderiam na perseguição pois ambas sentiam que a outra não estava a tentar apanhar a fuga, criando-se uma gigantesca vantagem de 24 minutos antes da primeira subida do dia. Apesar disto, o pelotão estava relativamente tranquilo, pois as 14 dificuldades do dia, mais os cerca de 130 quilómetros que faltavam, iriam facilmente retirar muito tempo à frente da corrida, que apesar da muito vantagem que trazia, tinha também apenas 4 elementos que já traziam algum desgaste da primeira hora de corrida alucinante, e a prova disto era que após a primeira subida do dia 10 minutos seriam retirados à frente da corrida. 

Wegmüller, Meyvisch e Durand na Ronde de 1992.
Retirado de: cyclingweekly.com

Até ao fim, o pelotão e os favoritos conseguiriam retirar mais tempo à frente, e com a perda de Roelandt da frente ainda cedo e de Meyrisch a 40 quilómetros da meta, e apesar de ainda terem 4 minutos para o grupo dos favoritos, Durand já não passava pela frente tanto quanto antes – o próprio diz que durante o quilómetro 60 e o quilómetro 40 para o fim teve fraqueza -, e atrás já eram os favoritos a trabalhar em conjunto e a reduzir rapidamente o tempo. Faltaria apenas o Muur Kapelmuur e o Bosberg, as últimas dificuldades do dia, e os carros da organização já tinham saído de trás dos dois fugitivos, esperando que fossem eventualmente apanhados. Passado o Muur Kapelmuur, Wegmüller sentia-se forte e confiante, Durand ganhava uma segunda vida, e a vantagem mantia-se estável para um pelotão que começava a ficar frustrado e a desistir da vitória, com o suíço a ter a informação do seu carro de apoio que Sean Kelly, o líder da Festina – a sua equipa –, não estaria no grupo que perseguia a frente da corrida e, portanto, a esperança da vitória da equipa recaía nele, pois no Muur Kapelmuur, Fondriest e Van Hooydonck isolar-se-iam dos restantes favoritos. Com o Bosberg à vista, a cerca de 10 quilómetros da meta, e com 2 minutos de vantagem sobre a perseguição, o duo da frente finalmente acreditou na disputa da vitória. Wegmüller estava confiante, mas diria depois que a bebida que tomou pouco antes da chegada à subida lhe caiu mal e o prejudicou, enquanto Durand, que já tinha passado mal previamente na prova, estava em recuperação. No Bosberg (não há imagens na internet dos dois da frente a subir o Bosberg) Durand aumentou o ritmo no final da subida e daí até ao final gastou todas as energias que tinha e foi aos poucos aumentando a vantagem sobre o suíço, que se resignaria ao segundo lugar, e atrás, Van Hooydonck e Fondriest lutariam pelo último lugar do pódio. 

A 3 quilómetros do final e com uma vantagem confortável, foi Eddy Merckx, num carro da prova, que deu os parabéns a Durand, que pela primeira vez nesse dia acreditava que iria ser o vencedor da prova. Cruzada a linha de meta, Durand celebraria, à data, a sua segunda vitória na carreira, a segunda após uma longa fuga, pois havia ganho o Grand Prix Isbergues de forma semelhante no ano anterior. Wegmüller, chegaria em segundo a 48 segundos, enquanto Van Hooydonck batia Fondriest pelo terceiro lugar ao sprint. 

Jacky Durand na meta da Ronde van Vlaanderen de 1992.
Retirado de: velo.outsideonline.com
Wegmüller a cumprimentar a multidão enquanto chega em segundo lugar.
Retirado de: bikeraceinfo.com
Pódio final da Ronde de 1992.
Retirado de: allezjackydurand.free.fr

Após esta vitória, Jacky Durand tornar-se-ia um especialista de fugas, um barouder como os franceses gostam de definir. Ganharia por 2 vezes o Campeonato Francês de Estrada, 3 etapas no Tour – 2 na fuga, e 1 prólogo que lhe permitiu envergar a camisola amarela um par de dias –, e uma miríade de provas de 1 dia e etapas nas principais provas francesas quase sempre a solo, ou a um sprint em grupos curtos, depois de um longo dia na fuga. Devido ao seu estilo de corrida, e como jeito de piada, a revista francesa Veló chegaria até a instituir o “Jackymétre”, que contablizava os quilómetros em fuga de Durand todos os meses durante a sua carreira. Nem todos os ciclistas irão ganhar as maiores provas, ou ser o ciclista mais forte em algum ponto da sua carreira, mas para ficar na história do ciclismo, mais que pernas ou talento, às vezes basta coragem e capacidade de sonhar. 

Jacky Durand com a camisola amarela do Tour em 1995.
Retirado do facebook: Souvenirs du Tour E. Nicoleau