Categories Estrada Internacional

Liége – Bastogne – Liége 1980: Neige – Bastogne – Neige

A História do ciclismo faz-se de estórias que muitas vezes não vimos. Servindo como vantagem, e também desvantagem, o ciclismo é um desporto “móvel”, na sua vertente mais famosa. Ao contrário de outros desportos mais praticados e populares, o ciclismo (de estrada) não é confinado a um recinto desportivo sujeito a bilheteira. Podemos simplesmente nos deslocar a uma estrada onde passe a prova e podemos (e devemos) aplaudir e encorajar os “Heróis do Pedal” que tanto entretenimento e horas de seguimento nos proporcionam. 

Mas se com o advento da televisão como um objeto comum no dia-a-dia de toda a gente e com um aumento de transmissão de todo o tipo de desporto, é importante relembrar como era numa época em que esta facilidade no acompanhamento de, por exemplo, uma prova, não era possível. E aqui entra o fator de vantagem e desvantagem que proporcionou muito dos relatos dos feitos de alguns dos maiores de sempre e que criou verdadeiras Lendas e tornou o estatuto do ciclismo um desporto muitas vezes mitológico. Sabemos de feitos dos grandes como Merckx ou Coppi por resultados, por relatos de jornais – que garantem sempre um certo nível de fidedignidade –, mas não menos importante pelo ser humano comum que se deslocava para ver os Gigantes deste desporto competir e transmitia aos seus pares os feitos quase indescritíveis que vivenciavam. Numa era em que se torna aborrecido para muitos fãs da modalidade ver Tadej Pogačar no topo em praticamente todas as provas, olhamos para o CV de Eddy Merckx e paradoxalmente queremos andar para trás 60 anos e acompanhar a carreira do belga in loco para tentar fazer algum sentido do seu domínio. 

O público próximo ao atleta, um dos fatores diferenciadores do ciclismo para outros desportos.
Na imagem, a subida ao Alpe D’Huez em 2013, na famosa curva neerlandesa.
Retirado de: cyclingnews.com

Uma das provas mais icónicas da História das provas de um dia é a Liége –Bastogne – Liége de 1980, apelidada de “Neige Bastogne Neige”, devido às condições climatéricas do dia de 20 Abril de 1980 na Bélgica. Um dia com neve, muito vento, muito frio e uma prova de proporções épicas que engrandeceu tanto o currículo, como o estatuto, de Bernard Hinault.  

Por vezes, ganhar muito não chega. Hinault – que é na opinião do autor do artigo o melhor Voltista de todos os tempos –, era, tal como temos hoje Tadej Pogačar, um ciclista que queria ganhar tudo o que apontava como objetivo. Ganhou 5 Tours, 3 Giri e 2 Vueltas. Ganhou também um Campeonato do Mundo, uma Paris – Roubaix, 2 Lombardias e 2 Liége – Bastogne – Liége. Algumas das suas vitórias, para além do domínio exercido, mostrava alguma vontade de humilhar os adversários, como por exemplo no Campeonato do Mundo de 1980 em Sallanches. Mas no dia 20 de Abril de 1980, quem assistiu pela televisão aos últimos quilómetros da “Doyenne” e via um dia solarengo, com Hinault isolado na frente na aproximação a Liége, nem sonharia o dia que tinha sido ultrapassado, e o quanto o francês escrevia uma das mais surreais, místicas e lendárias páginas de um desporto que destes feitos sempre viveu. 

Hinault em ação no Tour de 1981 com a camisola de Campeão do Mundo.
Retirado: bikeraceinfo.com

A partida da edição 66 do Monumento belga deu-se, como sempre, em Liége, com a primeira parte em direção a Bastogne, no Luxemburgo belga, e a segunda metade com o regresso à mesma cidade da partida, e desde cedo eram esperadas condições adversas, com muito frio e nuvens a ameaçar desde cedo descarregar um dilúvio em cima dos ciclistas. De 174 ciclistas que partiram para a estrada, apenas 21 finalizaram a prova, e muito cedo no dia os ciclistas começaram a desistir, havendo até relatos que muitos assinaram somente o livro de prova e voltaram para o hotel onde se encontravam alojados. Os relatos dizem que passado pouco tempo do arranque da prova começou a nevar, e quando os ciclistas “deram a volta” em Bastogne, já cerca de apenas 50 restavam para o que faltava. Por essa altura, da equipa de Hinault, a Renault – Gitane – Campagnolo, restava apenas com o líder o compatriota Maurice Le Guilloux, que serviu como um dos dois fatores mais importantes para “Le Blaireau” – em português “A Doninha” –, continuar e eventualmente ganhar nesse dia. Le Guilloux teve um papel duplo, o primeiro como principal escudeiro de Hinault no dia, pois foi o que mais tempo aguentou com o eventual vencedor da prova, e em segundo lugar porque o espírito competitivo e o ego da “Doninha” nunca o iriam permitir desistir antes do colega de equipa – algo que posteriormente admitiria que pensou fazer em vários pontos da prova. O segundo fator foi coincidental, mas nos pontos de alimentação em Bastogne e Vielsalm o tempo deu algumas tréguas aos atletas e animou Hinault para continar o mais antigo dos Monumentos nesse dia. 

HInault em ação na “Doyenne” em 1980.
Retirado de: cyclist.co.uk

Cyrille Guimard, o diretor desportivo da Renault e um antigo ciclista, fez então, pouco depois do posto de alimentação de Vielsalm, a cerca 90 quilómetros da meta, o inusitado pedido para Hinault tirar o casaco que trazia vestido e para se aquecer impondo um ritmo duro na corrida. Hinault, apesar de surpreendido com o pedido, eventualmente acedeu, e, indiretamente, foi assim que Guimard deu a vitória ao ultracampeão francês. Apesar de alguns ataques, Hinault passou para a frente do (muito reduzido) pelotão que restava e impôs um ritmo elevado no Côte de Stockeu para tentar causar uma separação entre os homens mais fortes, levando consigo alguns ciclistas importantes. No Côte de Haute-Levée, Hinault fez o mesmo, impondo desde cedo um ritmo muito forte. Quando olhou para trás para ver quem seguia, Hinault foi confrontado com o facto que estava isolado e sem ninguém em vista, e seguiu a solo, cerca de 80 quilómetros até chegar à meta com uma vantagem clara e sem margem para discussões do que se havia passado. O francês, que acabou por nem levantar os braços tal era o cansaço, havia ganho com uma diferença para o segundo lugar e terceiro lugar, Hennie Cuyper e Ronny Claes, respetivamente, de 9 minutos e 24 segundos, uma vantagem inacreditável e quase impossível nos tempos de ciclismo moderno. 

O sprint entre Kuiper e Claes.
Retirado de: kampioenwilskracht.nl

Este feito tornou Hinault, na altura com 25 anos e a se assumir como o “Patrão” do pelotão Internacional, como uma figura já mítica apesar da sua juventude. Daqui, partiria para mais alguns feitos extraordinários, como a Paris – Roubaix de 1981, que tal como a Liége – Bastogne – Liége de 1980 ascendeu a um nível lendário devido à performance de cariz mitológico de Hinault, que apesar de apenas 5 Monumentos e um Mundial, praticamente todas estas vitórias justificam a adoração e devoção à “Doninha”, pois porque mais que ganhar muito, também é preciso como, e quando, saber ganhar. 

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *