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Sean Kelly na Figueira Champions Classic

Sean Kelly na Figueira Champions Classic

A lenda do ciclismo fala sobre a sua carreira, a evolução do ciclismo profissional e a sua amizade com Acácio da Silva, também embaixador da Figueira Champions Classic.

Sean Kelly, natural da Irlanda, é um dos melhores ciclistas de todos os tempos. Ao longo da sua carreira, conquistou a Vuelta a España, 2 Voltas à Suíça, 2 Voltas à Catalunha, 2 Milano-Sanremo, 2 Paris-Roubaix, 2 Liège-Bastogne-Liège, 3 Voltas ao País Basco, 3 Giro di Lombardia e um recorde absoluto de 7 Paris-Nice, juntamente com 4 camisolas verdes do Tour de France e muitas etapas em grandes voltas. Com este palmarés impressionante, visita Portugal para atuar como Embaixador da Figueira Champions Classic em conjunto com outra lenda do ciclismo: Acácio da Silva.

Sean Kelly venceu o Paris-Roubaix em 1984 e 1986.
Foto: Rouleur.cc

A carreira de Sean Kelly no ciclismo começou nos tempos de adolescente, e por influência do irmão mais velho, Joseph, que infelizmente já faleceu: “Eu comecei 3 ou 4 meses depois dele, no clube da cidade onde ainda vivo, Curraghduff. Eles estavam a organizar corridas para jovens de 14 anos e foi assim que comecei.” A partir daí, o jovem Kelly começou a vencer campeonatos e voltas nas ilhas britânicas, que mais tarde captaram a atenção de um clube francês, baseado em Metz, onde também estavam os irmãos de Acácio da Silva. A estreia como profissional seria pela mão do diretor desportivo da Flandria, Jean de Gribaldy, que também era de Joaquim Agostinho nessa altura. “Conheci o Joaquim Agostinho quando me tornei profissional. Os meus primeiros anos foram na equipa do Jean de Gribaldy, e ele esteve nessa equipa por dois anos.”

A estreia em grandes voltas ocorreu um ano depois, no Tour de France 1978, e logo com uma vitória em etapa. “Olhando para trás, tenho boas memórias. Só participar no Tour de France é um sonho para todos os ciclistas profissionais, e mesmo quando começas no ciclismo, pensas que talvez um dia possas participar no Tour.” A vitória em Poitiers, batendo os seus companheiros de fuga ao sprint, é considerada por Kelly como “uma grande conquista na altura, porque quando começas no Tour de France, levas 3 a 4 anos para te acostumares”, ainda que reconheça que, nos dias de hoje, “os jovens ciclistas entram no Tour e vencem logo.”

Sean Kelly na Flandria, equipa que foi também de Joaquim Agostinho.
Foto: Flandria Bikes

De sprinter a vencedor de grandes voltas

Sean Kelly começou como um sprinter que garantia vitórias em etapa à sua equipa, mas o seu treinador e diretor desportivo percebeu que o ciclista irlandês podia trabalhar para algo mais: “Ok, podes vencer algumas corridas por etapas, não és apenas um sprinter, e para isso precisas de perder muito peso”, afirmou Jean de Gribaldy certo dia, e a partir desta afirmação, os dois iniciaram o trabalho com vista a transformar Kelly em alguém que pudesse também vencer provas por etapas. “Não era algo que pudesse ser feito em 6 meses ou um ano, e eu levei 3 a 4 anos para reduzir o meu peso”, conta ao recordar os sacrifícios feitos só para começar a vencer provas como o Paris-Nice ou a Volta à Suíça, o que apenas reforçou a crença de Gribaldy. “Podes vencer um Tour de France ou uma Vuelta a España”, disse ele ao seu ciclista, e o tempo dar-lhe-ia razão nesta afirmação, porque em 1988, ao fim de muitos anos de trabalho árduo, Sean Kelly conquistou a Vuelta a España.

“A Vuelta foi um grande feito para mim, porque eu era mais um sprinter no início da minha carreira profissional, do que um all-rounder ou um trepador.” Mas na edição anterior, em 1987, Sean Kelly já tinha andado muito perto da vitória na classificação geral: “Tive um problema físico por causa do meu assento e tive que abandonar a 3 dias do final, quando estava com a camisola de líder e em boa posição para vencer”, recorda ele ainda com alguma desolação na voz. A verdade é que o percalço apenas o tornou mais forte, e também com o forte incentivo do patrocinador titular, espanhol, da sua equipa na altura, a Kas, conseguiria mesmo vencer a Vuelta em 1988. No momento da vitória, Kelly confessa que “senti um grande alívio e muita felicidade, porque foram muitos anos a trabalhar para chegar àquele nível. Desde o ciclista que eu era no início, tive que fazer muitos sacrifícios, perdi muito peso para poder subir as grandes montanhas. Quando atinges esse objetivo, sabes que levou muito tempo, então é uma grande satisfação, como que ‘consegui finalmente’.”

Ao longo dos anos e com muitos sacrifícios, Sean Kelly construiu uma consistência dificilmente igualável no ciclismo profissional (na atualidade, apenas Tadej Pogačar mostra traços de semelhante consistência). A consistência tornou-se na maior força do ciclista irlandês, valendo-lhe quatro camisolas verdes do Tour de France. “Alguns ciclistas podem ser consistentes durante toda a temporada, outros têm mais dificuldade, acredito que isso é do indivíduo”, considerando que Jean de Gribaldy contribuiu muito para essa consistência, introduzindo programas de treino e de recuperação inovadores. Quanto à camisola verde, apesar de considerar que a camisola amarela é mais importante, “a camisola verde é de grande importância também, para a equipa e para o ciclista”, sendo que rapidamente se tornou “num grande foco e num dos meus principais objetivos em cada temporada”. Ficou comprovado no tempo mais distante de Sean Kelly, e reforçado no tempo menos distante de Peter Sagan, que uma capacidade de subida acima da média dos outros sprinters é chave para conquistar muitas camisolas verdes.

Sean Kelly com o seu diretor, Jean de Gribaldy, na Vuelta 1988.
Foto: Vitus Bikes

O espetáculo do ciclismo moderno

Sean Kelly retirou-se do ciclismo profissional em 1994, e ele é o primeiro a reconhecer que o ciclismo profissional mudou muito desde então. “As corridas tornaram-se muito mais emocionantes. Agora corre-se o dia inteiro desde o quilómetro 0, os ciclistas conseguem fazer isso porque as etapas são mais curtas”. Neste sentido e na perspetiva dele, “a coisa que mais permanece igual são os grandes talentos. Esses ciclistas serão sempre os melhores, era assim na minha época e é assim agora”, sendo que a preparação destes ciclistas “é mais ou menos a mesma, mas agora as equipas fazem todas a mesma preparação para as corridas que visam”.

Questionado sobre qual o grande talento que mais admira no ciclismo moderno, Kelly prefere destacar a dimensão coletiva do espetáculo – ao qual temos assistido nos últimos Tour de France – que envolve não apenas os ciclistas, mas também os espetadores, sobretudo aqueles que veem através do ecrã. “Tens de tornar o espetáculo interessante, porque, caso contrário, é muito difícil manter o foco dos telespectadores”, salienta já na sua postura de comentador do Eurosport. Kelly comenta desde 1998 e admite nunca perder o interesse, muito porque “desta forma, acompanho os novos ciclistas e o que eles são capazes de fazer. Se eu não estivesse a comentar, não os conheceria tão bem. Isso é uma coisa boa.” Pela oportunidade de poder continuar a acompanhar o melhor ciclismo do mundo, do qual fez parte durante tantos anos, sente uma enorme gratidão: “É adorável estar envolvido! Nem todos os ciclistas têm essa oportunidade, porque há poucos lugares para comentadores. Eu gosto muito de comentar, e essa é a razão pela qual continuo a fazê-lo.”

Sean Kelly com Wout Van Aert no ciclocrosse de Dublin.
Foto: X/Sean Kelly

Acácio da Silva, um velho novo amigo

Durante cinco anos, incluindo na Vuelta que conquistou, Sean Kelly contou com o apoio de Acácio da Silva. “Tivemos bons anos juntos na mesma equipa, com o Jean de Gribaldy”, mas a estadia de Acácio nesta equipa não duraria muito tempo; Kelly explica isso com a grande diferença de mentalidade entre o português e o seu diretor francês: “O Acácio gostava de ser livre e divertir-se mais durante a temporada, enquanto o Gribaldy era muito rigoroso, intenso e sempre focado nos treinos e nas corridas. Eu acho que o Acácio não conseguia fazer isso o tempo todo, talvez conseguisse por 2 meses, mas depois relaxava”, referindo-se ainda ao seu antigo companheiro de equipa, em tom de brincadeira, como um playboy fora da bicicleta.

Em cima da bicicleta, Sean Kelly tem muito boas memórias de Acácio da Silva: “Lembro-me de um Giro di Lombardia em que estivemos juntos, no final, com o Gianbattista Baronchelli, o Phil Anderson e outros ciclistas, e o Acácio estava a puxar como um louco, tão forte! Ele estava a ‘matar-nos’ na subida para Valcava, então tive que lhe pedir, várias vezes, para baixar um pouco o ritmo, porque ia-me deixando para trás.” Kelly acabaria por terminar essa corrida no 2º lugar, e com isso recorda uma história de outro 2º lugar, desta feita por Acácio da Silva: “Um ano, na Volta à Suíça, tentámos fazer com que ele vencesse e ele estava em boa posição, mas perdeu a camisa no contrarrelógio para outro ciclista.” De ambas as histórias, retira-se a importante lição de que conta mais a caminhada do que propriamente os resultados.

Sean Kelly (camisola verde) com Acácio da Silva (camisola amarela) no Tour 1989.
Foto: X/Cycling Archives

A caminhada de Sean Kelly e Acácio da Silva tem sido longa, inclusive anterior aos anos em que foram companheiros de equipa. “Mesmo estando em equipas diferentes por muitos anos, sempre tivemos um bom contacto e fomos sempre bons amigos”, o que demonstra como “alguns ciclistas tornam-se bons amigos mesmo quando não estão na mesma equipa.” O contacto entre os dois foi-se aprofundando nos últimos anos, particularmente depois de um evento para lendas do ciclismo em que ambos participaram, e “um dia ele perguntou-me se eu estaria disponível para vir à corrida em Portugal, sábado e domingo, e eu disse que sim, que era um bom momento para mim, porque não estou a comentar no Eurosport”.

Apesar de nunca ter competido profissionalmente em Portugal, apenas na corrida de aposentadoria de Acácio da Silva, Sean Kelly mostra-se ansioso por estar novamente em Portugal, junto dos fãs de ciclismo! Agradecemos a Sean Kelly e à organização da Figueira Champions Classic pela oportunidade de conversar com um dos melhores ciclistas de sempre, e reafirmamos a sua ânsia pela ‘festa do ciclismo’.

Fotos de capa: Tour de France & Cycling Weekly

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