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PCM Mulheres no Ciclismo: Yana Seel, Pioneira no pelotão Masculino começa novo desafio na Team UAE ADQ

PCM Mulheres no Ciclismo: Yana Seel, Pioneira no pelotão Masculino começa novo desafio na Team UAE ADQ

English Version: PCM Women in Cycling: Yana Seel, a pioneer in the men’s peloton, begins a new challenge with Team UAE ADQ

Yana Seel define-se como uma pessoa com visão de futuro, concentrada na criação de riqueza, num mundo de números onde sabe como se orientar, cuja experiência e realizações falam por si, deixando uma marca no pelotão masculino e agora no feminino.

É uma pioneira no mundo do ciclismo, tendo feito história ao tornar-se na primeira mulher a ocupar o cargo de Directora-Geral numa equipa masculina WorldTour, na Astana Qazaqstan Team. Posteriormente, foi para a Lotto Dstny, onde desempenhou o cargo de Directora Comercial durante dois anos. Agora, como Directora de Negócios e Comunicações da Team UAE ADQ, as portas estão abertas para um futuro brilhante no pelotão feminino.

“Para ser sincera, há muito a melhorar para as mulheres no ciclismo. Quando comecei, há quase sete anos, era muito limitado. Na altura, nem me apercebi que era a primeira mulher CEO, só o disseram depois. O ciclismo ainda é muito antiquado, infelizmente. Há muito a fazer e foi por isso que assinei contrato com a minha nova equipa, a Team UAE ADQ”.

Num momento muito atarefado, enquanto abraça um novo desafio, Yana Seel encontrou um momento para falar com a Portuguese Cycling magazine sobre a sua carreira, as suas perspectivas de futuro, o seu trabalho para empoderar as mulheres e o seu papel como mulher numa sociedade que ainda é orientada pelos e para os homens.

Da saúde ao ciclismo

Yana é um grande nome do ciclismo, mas a sua chegada ao desporto não foi nada óbvia e esperada, com três diplomas universitários (tecnologia farmacêutica e biomédica, gestão de empresas e marketing e comunicação), mas sem um passado na bicicleta. Ela guia-nos através do seu passado, que começou no sector da saúde.

“Trabalhei durante muitos anos na indústria farmacêutica e depois criei a minha própria empresa. Além disso, tinha alguns projectos no Cazaquistão, por exemplo, a criação de um hospital de oncologia infantil.”

Uma coisa levou à outra e Yana criou a sua própria empresa, o que exigiu alguns conhecimentos de negócios e de gestão, o que a acabou por levar ao ciclismo.

“Comecei a minha colaboração com o Cazaquistão e, passados seis anos, fizeram-me uma pergunta sobre a sua equipa de ciclismo – Astana Pro Team. Nessa altura, eu desconhecia totalmente o ciclismo. Quando recebi a proposta, comecei a descobri-lo e recebi imediatamente a proposta para me tornar diretora executiva”.

Fotografia da equipa – GettySport/Tim de Waele

As razões que levaram Yana Seel a juntar-se à Astana Pro Team são, paralelamente à sua entrada no ciclismo, únicas e inesperadas.

“Foi um movimento estranho na minha carreira. Talvez porque quisesse experimentar outra coisa. Talvez por ter praticado muito desporto quando era criança. Foi sempre a minha paixão e não demorei muito tempo a pensar nisso, simplesmente arrisquei e aceitei o papel na equipa.”

Existe uma relação intrínseca com o desporto e quem o pratica, mas essa relação nem sempre é evidente, parecendo por vezes perdida no tempo, como foi o caso de Yana. 

“Fiz ginástica e fui selecionada para os campeonatos nacionais, mas era muito difícil para mim conciliar a ginástica com os estudos, por isso os meus pais optaram pelos estudos em vez do desporto. “

Como CEO da Astana Pro Team, Yana viu-se num papel fundamental no ciclismo, gerindo tudo o que estava relacionado com a captação e manutenção de patrocinadores, a principal fonte de receitas financeiras da equipa e, por conseguinte, a forma de garantir a sua sobrevivência.

“As minhas principais funções, tal como para qualquer CEO, eram todos os processos legais: licenças; administração; assinatura dos contratos; pagamento dos salários; correção do orçamento. Esta última foi um grande desafio, porque tinha uma situação orçamental difícil, devido ao facto de alguns patrocinadores terem decidido deixar de colaborar e eu ter recebido uma empresa com um saldo negativo. Por isso, as pessoas na Astana Pro Team viram-me como gestora de crises, porque tinha de bloquear muitas coisas… e manter o orçamento debaixo de olho, porque este era um dos meus maiores objetivos: levar a equipa a um saldo orçamental positivo.”

Yana liderou a equipa em tempos difíceis, especialmente durante a pandemia causada pelo COVID-19, o que a obrigou a tomar decisões também elas difíceis, como a redução do salário de toda a equipa, sem excepções, para ela se manter. No ano seguinte, a Astana Pro Team passou a ser Astana – Premier Tech quando a Premier Tech se tornou co-patrocinadora, uma mudança notável na equipa: pela primeira vez nos seus 15 anos de história, o nome da equipa Astana Pro Team foi partilhado com um co-patrocinador. Este foi só um dos exemplos do trabalho que Yana realizou durante o seu tempo na equipa, onde também criou uma equipa de ciclismo para crianças e jovens.

Depois de 3 anos na Astana- Premier Tech, Yana Seel decidiu aceitar a oferta para se juntar à Lotto Dstny (na altura Lotto Soudal) como Diretora Comercial. Chegou num momento difícil para a equipa, quando o seu patrocinador dos últimos 8 anos, Soudal, se mudou para outra equipa belga, pelo que o seu papel era encontrar um novo patrocinador para alinhar com a Lotaria Nacional Belga – Lotto e, ao fazê-lo, ajudar a garantir o lugar da equipa no World Tour. Houve, naturalmente, uma grande mudança:

“John Lelangue era o Diretor Executivo na altura, mas eu estava a fazer coisas muito semelhantes às da Astana, com mais tempo para me concentrar na situação comercial e na procura de patrocinadores. Comecei imediatamente por encontrar um substituto para a Soudal. A Lotaria Nacional da Bélgica [Lotto] pediu-me que me juntasse à equipa o mais rapidamente possível para ajudar a atrair um novo patrocinador, que é agora a Dstny. Decidi imediatamente assinar com a Dstny e este foi o meu primeiro patrocinador.”

A Dstny, uma empresa belga centrada no fornecimento de soluções modernas de comunicação empresarial baseadas na tecnologia de cloud, juntou-se à mais antiga equipa profissional de ciclismo em 2022 pelas mãos de Yana Seel. A empresa de tecnologia começou com a equipa antes da Volta à França, mas o nome da equipa permaneceu Lotto Soudal, até ao final da mesma temporada, passando posteriormente a ser Lotto Dstny.

Lutar por um ciclismo melhor

Nos últimos sete anos, Yana também tem sido um membro ativo da Associação Europeia de Mulheres, embora o seu trabalho não esteja diretamente relacionado com o desporto. A sua atividade centra-se na capacitação de jovens mulheres empresárias para ultrapassarem os seus medos e atingirem os seus objectivos, através de palestras e ações para inspirar e apoiar essas mulheres. Estes esforços também se estendem ao ciclismo, como é óbvio, e são evidenciados pelo seu trabalho em todas as equipas da Lotto Dstny.

“Para ser honesta, não consegui fazer muito [na equipa feminina]. A minha grande frustração foi o facto de, quando se está envolvido numa equipa masculina, ser muito difícil fazer qualquer outra coisa. O meu maior objetivo era dar às raparigas mais espaço no orçamento, encontrando patrocinadores extra. A equipa de desenvolvimento da Lotto Dstny fez alguns progressos e elas podem utilizar todas as instalações da equipa masculina (bicicletas, equipamento…), mas continua a ser uma equipa pequena e, claro, para melhorar a situação, é necessário mais orçamento.”

O papel do orçamento é muito enfatizado por Yana Seel, especialmente tendo em conta as condições de mercado altamente limitadas para as mulheres no ciclismo. Para recrutar ciclistas de topo para a equipa feminina de ciclismo, tem de se agir rapidamente. Ao contrário do que acontece no pelotão masculino, onde todos os anos há ciclistas talentosos sem contrato, essas oportunidades são raras para as mulheres ciclistas.

Para Yana, ainda mais importante do que o orçamento são as bases do ciclismo, a começar pelas condições nas estradas para a prática de ciclismo e por conseguinte as condições para o treino. Tomando como exemplo a Bélgica, um país onde o ciclismo é muito popular, as estradas e as infra-estruturas carecem de segurança e os pais dos jovens ciclistas belgas preocupam-se com os acidentes, ao ponto de não os deixarem treinar. Por conseguinte, tornar as estradas mais seguras, como acontece nos Países Baixos, que têm vias separadas para carros e bicicletas, poderia ajudar mais raparigas talentosas a entrar no ciclismo na Bélgica. É imperativo tornar o ciclismo mais interessante para as mulheres, reconhecendo as suas exigências físicas e, simultaneamente, o seu verdadeiro empenho no desporto.

A Aliança dos Ciclistas (TCA) divulgou os resultados do seu inquérito anual aos ciclistas em 2023, que revelou as três principais áreas de preocupação das mulheres no ciclismo profissional: salários, segurança e coberturas em direto. Em relação aos salários, Yana partilha uma forte opinião sobre o bloqueio dos salários das ciclistas:

“Não concordo quando ouço coisas como ‘temos de manter baixos os salários das ciclistas’. As equipas não podem seguir a tendência e temos de crescer lentamente. Na minha opinião, esta não é a melhor solução. Prefiro dar às ciclistas femininas as mesmas oportunidades que temos no ciclismo masculino, melhorando o modelo de negócio subjacente e, por isso, vamos precisar definitivamente de apoio adicional da UCI e dos organizadores de corridas”.

Há uma consciência crescente de que as ciclistas profissionais do sexo feminino merecem igualdade de remuneração, bem como apoio e oportunidades, mas este é um trabalho em curso. Olhando para um exemplo positivo, após a Volta à Flandres em 2022, a Flanders Classics decidiu começar a oferecer prémios monetários idênticos para homens e mulheres, dando um passo concreto para diminuir a diferença de género no ciclismo e profissionalizar as corridas femininas. Mas, apesar dos progressos realizados nos últimos anos no Tour de France Femmes, as ciclistas continuam a receber salários desiguais, menos cobertura mediática e, por conseguinte, muito menos oportunidades de correr. Isto mostra que o paradigma está a mudar, mas ainda há muito a fazer, não só pelos organizadores das corridas, mas também pelas equipas.

Luta antiga, nova arena 

A nomeação de Yana Seel como Chefe de Negócios e Comunicações da Team UAE ADQ marca um avanço notável para esta equipa feminina de ciclismo profissional, destacando a sua dedicação à promoção da diversidade e da excelência na esfera do ciclismo.

“Depois da minha carreira na Lotto Dstny, decidi juntar-me a outra equipa [Team UAE ADQ]. A minha atividade principal é, na verdade, melhorar a situação financeira e ajudar a equipa com patrocinadores e, durante os últimos anos, também me concentrei na comunicação. Foi por isso que iniciei a colaboração com a Team UAE ADQ, porque podemos olhar na mesma direção, e não apenas pela imagem, eles querem realmente fazer algo pelas mulheres no ciclismo”.

O cargo de Diretora de Negócios e Comunicações estava anteriormente ausente na equipa, e agora as principais responsabilidades de Yana vão girar em torno do desenvolvimento de negócios, marketing e comunicação, com o objetivo de desenvolver a equipa e trazer mais diversidade para a comunidade do ciclismo.

“Esta equipa é muito jovem, mas está a avançar muito rapidamente e de uma forma muito inteligente. Investem, mas não cegamente, ouvem os seus colaboradores e actuam como profissionais. Ao mesmo tempo, o equilíbrio entre ser uma família e tornar-se profissional é muito arriscado. Algumas equipas estão a tornar-se muito profissionais, mas perdem o sentimento de família, encontrar o equilíbrio entre estas duas facetas é a melhor decisão.”

Agora, conhecendo bem o seu passado e o seu presente, lançámos a Yana Seel o desafio de definir um grande objetivo para esta nova fase da sua carreira profissional. 

“É uma boa pergunta, que eu própria ainda estou a procurar. A certa altura, tive um sentimento muito forte: ‘Oh, Yana, tens de fazer algo diferente’. Há vários anos que falo para mulheres, mas nunca me senti tão empenhada em melhorar no futuro. Cheguei à idade certa e à situação mental certa para o conseguir, com a Team UAE ADQ. Acredito sinceramente que podemos manter as condições justas para as mulheres e continuar a melhorar para nos aproximarmos do nível dos homens, mas é claro que os organizadores também precisam de nos dar mais visibilidade, não apenas na última hora da corrida. Por isso, o meu primeiro e mais importante objetivo é trabalhar no modelo de negócio e, depois, ao fazê-lo, melhorar o ciclismo feminino em geral.”

O que podes fazer?

Na parte final desta entrevista, Yana Seel dá alguns conselhos às mulheres que estão a tentar iniciar uma carreira. Ser crítica e empreendedora nunca é um caminho fácil, e ela avisa para não te deixares enganar pelo Instagram, nomeadamente pela imagem da ‘mãe bem-sucedida’ que concilia trabalho e família sem esforço, o que muitas vezes está longe da realidade. É um ato de equilíbrio difícil, gerir o trabalho e os filhos enquanto começas um negócio, por isso procurares ajuda e apoio é crucial. Mas estabelecer prioridades e fazer escolhas que estejam de acordo com os teus objetivos e valores é o mais importante.

A coisa mais importante em termos de gestão de todos os seus projectos e vida pessoal é, segundo Yana, “seguires os teus sonhos”. 

“É só dares a ti própria, enquanto mulher, a possibilidade de decidir e não seguires o que é prescrito pelas redes sociais ou pelas gerações passadas. Escolhe o que é melhor para ti. Eu escolhi ter filhos e ter um emprego. Às vezes, não vamos ser a melhor mãe e não faz mal. Levei anos a perceber que, quando tenho tempo livre, vou passá-lo com os meus filhos e ter tempo de qualidade com eles, mas quando estou no trabalho, dou 200%.”

Yana vive a sua vida ao máximo e, apesar dos altos e baixos que teve na sua carreira profissional e também na sua vida pessoal, a sua perseverança torna-a num exemplo para todos, dentro e fora do ciclismo, tanto homens como mulheres. Ela deixa-nos a mensagem de que é normal ter altos e baixos, que os baixos são importantes para o crescimento e desenvolvimento de cada um, e que ter sucesso é ótimo, mas tentar chegar lá é o mais importante.

“Não há problema em não ser perfeito. No ciclismo, as raparigas começam com um perfil muito baixo, mas não se esqueçam que Lotte Kopecky e Demi Vollering, no início das suas carreiras, eram apenas raparigas a andar de bicicleta. Acredita em ti, vai em frente! Contacta e tenta falar com o maior número de pessoas possível, porque um dia terão a vossa resposta ou a pessoa certa no vosso caminho. Não desistas e tenta enquanto puderes!”

No Dia Internacional da Mulher, gostaríamos de agradecer a Yana Seel pela sua disponibilidade para ter esta conversa sincera, que promete inspirar não só as mulheres no ciclismo, mas também qualquer género em qualquer situação em que se encontrem, deixando-nos a todos com a perspetiva de um futuro melhor. O mais importante é que o trabalho em prol da igualdade de género ainda está em curso e requer a contribuição de todos nós, homens e mulheres, reconhecendo tanto as diferentes exigências físicas como o mesmo compromisso para com a modalidade, para moldar o ciclismo de forma a ser mais envolvente e seguro para as necessidades das mulheres, mudando-o assim para melhor.

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