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PCM Entrevista com Alexandre Montez: “Foco-me no dia a dia, e o que tiver de vir, virá”

PCM Entrevista com Alexandre Montez: “Foco-me no dia a dia, e o que tiver de vir, virá”

Foi no triatlo que começou a dar nas vistas, mas foi para o ciclismo que virou agulhas e onde tem vindo a cimentar a sua ainda curta carreira. Com apenas 22 anos, e acabado de somar o maior número de dias de corrida numa temporada, Alexandre Montez destacou-se como uma das revelações do ano velocipédico em Portugal. As exibições de Montez nas provas domésticas não passaram despercebidas ao selecionador nacional José Poeira, que promoveu a estreia do ciclista da Credibom / L.A. Alumínios / MarcosCar pela seleção nacional, incluindo-o nos lotes de atletas que representaram Portugal num leque de provas pertencentes à Taça das Nações Sub-23.

Com apenas duas épocas completas ao mais alto nível no ciclismo de estrada, o ciclista da pequena localidade de Aldeia de Além, no distrito de Santarém, mostra dar passos largos, mas consistentes, na sua evolução. E mais do que nos resultados, é o desenvolvimento sustentado que Montez prefere destacar, como revelou à Portuguese Cycling Magazine quando questionado sobre a sua temporada:

Simplesmente levo as coisas dia a dia. Eu foco-me no dia a dia, e depois o que tiver de vir, virá. E acho que foi um pouco isso. Nunca liguei muito [aos resultados], nunca criei muitas expectativas. Claro que se puder ganhar uma ou outra corrida, claro que sim. Mas nunca foi o meu principal objetivo. E essa é um bocado também a minha forma de ver o desporto. Trabalhar dia a dia, desfrutar dos treinos, de todo o processo, para depois nas competições poder usufruir daquilo que foi trabalhado, tanto na pré-época como nos estágios.

Alexandre Montez, vencedor da classificação do melhor jovem no GP Douro Internacional (Fonte: UVP-FPC)

E a filosofia de Montez parece ter dado frutos. Sempre em crescendo, pautou os primeiros três meses de competição por uma regularidade assinalável, e prova disso são as três classificações da juventude vencidas em provas do calendário doméstico (Grande Prémio O Jogo, Grande Prémio Anicolor e GP Douro Internacional); o segundo lugar na mesma classificação numa das corridas nacionais da categoria UCI, a Volta ao Alentejo (em luta com os britânicos da Trinity Racing); ou ainda o 8º lugar na dura Clássica Aldeias de Xisto.

As promissoras exibições na primeira metade da temporada entre os “grandes” colocavam Montez como um dos principais favoritos à vitória final da Volta a Portugal do Futuro, a Grandíssima para o escalão Sub-23. Seria este o primeiro grande teste da temporada em alta montanha, já que o local escolhido para a chegada da penúltima etapa da prova foi a duríssima subida ao Alto de São Macário, em São Pedro do Sul (9,3 km a 8.6% de inclinação média). O ciclista da Credibom / L.A. Alumínios / MarcosCar parecia ter “estudado” da melhor forma para esta aferição, já que fechou a etapa na terceira posição, a apenas 21 segundos do vencedor. Ainda assim, prefere moderar a avaliação das suas reais capacidades, uma vez que nem o próprio se atreve a prenunciar algo nesta matéria:

Ainda não descobri bem qual é a minha especialidade. Eu acho que me consigo defender melhor em terrenos mais montanhosos do que em terrenos planos. Agora, também não me considero nenhum trepador. Ainda me estou a descobrir e penso que com o tempo isso será mais fácil de perceber.

Não obstante, Montez terminaria a competição na sexta posição à geral, devido, sobretudo, à perda de tempo que averbou na primeira etapa perante os seus mais diretos adversários.

Mas o próximo desafio estava já ao virar da esquina, ainda na categoria Sub-23. Desta feita, trocou o jersey da turma comandada por Hernâni Brôco pelo da seleção nacional, e poucos dias depois rumou até à Chéquia para participar na Course de la Paix, competição que marcou a estreia de Montez pela seleção nacional de ciclismo. Finalizou a prova num honroso 17º lugar, mas o tempo para saborear o momento era escasso, já que três dias depois alinharia à partida do GP Douro Internacional, onde viria a confirmar o bom momento, sendo o melhor jovem da competição. O “louco” mês de junho de Montez apenas ficaria completo em Mogadouro, na corrida em linha do escalão Sub-23 dos Campeonatos Nacionais, de onde saiu com o bronze ao peito.

Montez com o colega de equipa João Macedo no pódio da corrida de fundo dos Campeonatos Nacionais da categoria Sub-23 2023(Fonte:UVP-FPC)

Chegávamos assim ao ponto alto da temporada: o mês de agosto. Para qualquer ciclista que representa uma equipa nacional é este o mês que povoa o pensamento nos dias cinzentos e chuvosos de inverno; agosto é motivação, sacrifício, foco; e mais do que qualquer outra altura, é também oportunidade, mediatismo, festa. Agosto é sinónimo de Volta a Portugal! O pináculo das duas rodas em Portugal, a prova rainha onde qualquer ciclista português sonha inscrever o seu nome. E Alexandre Montez não é exceção. Contudo, Montez viu-se confrontado com um impasse… causado pelas Jornadas Mundiais da Juventude. A organização deste evento em Portugal no mês de agosto provocou uma alteração na data de início da Grandíssima, que foi adiada uma semana. Qual efeito dominó, isto fez com que o dia do contrarrelógio final da Volta, em Viana do Castelo, coincidisse com o dia da primeira etapa da Volta a França do Futuro. Além disso, a organização, pela primeira vez, dos Campeonatos do Mundo de Ciclismo da UCI (que congregou na mesma semana a discussão dos títulos mundiais de 13 modalidades velocipédicas) “obrigou” à transferência dos Campeonatos do Mundo de estrada de setembro para agosto, sobrepondo os primeiros dias da Volta a Portugal. Tudo somado, não era difícil perceber a exclusividade mútua a surgir deste cenário: a participação numa destas duas corridas, a Volta a Portugal ou a Volta à França do Futuro, impediria a participação na outra. Considerando a preponderância que Montez foi ganhando nos selecionáveis da equipa nacional para as provas do escalão Sub-23, este era um cenário real:

Não desde o início da época, mas ao longo da temporada fui-me apercebendo [que poderia ser convocado para a Volta a França do Futuro; ed.]. Com os resultados que estava a obter, fui-me apercebendo que poderia haver uma possibilidade de ir à seleção, e isso foi surgindo ao longo da época. Tinha aquela expectativa, sabia que poderia ser possível, mas só quando saísse a convocatória é que teria a certeza.

E a certeza surgiu nas últimas semanas de julho. A divulgação da lista de nomes que iriam representar Portugal nos Campeonatos do Mundo de Estrada, em Glasgow, no início de agosto, foi o carimbo no passaporte de Alexandre Montez para a viagem até França, duas semanas depois. Por outro lado, era a confirmação também do adiamento da estreia de Montez na Volta a Portugal:

Não, não fiquei [desiludido por não ter participado na Volta], porque surgiu a oportunidade de fazer a Volta a França do Futuro. É certo que no início da temporada eu tinha definido a Volta a Portugal como uma prova importante, e que gostaria de me estrear na competição. Não me estreei, mas foi uma opção técnica acordada por mim e pela equipa. Mas penso que mais oportunidades virão. E sendo a Volta a Portugal uma prova do escalão Elites, digamos que até ao fim da minha carreira posso ter a oportunidade de a fazer várias vezes. Enquanto a Volta a França do Futuro é uma oportunidade única, teria de aproveitar enquanto ainda sou Sub-23. E foi isso que eu fiz. Foi uma das principais razões de não ter participado na Volta a Portugal também.

Caso Montez tivesse efetivado a sua estreia na Grandíssima na pretérita edição, seria um dos ciclistas mais jovens do pelotão de 125 unidades que alinhou à partida na cidade de Viseu. Por extrapolação dos resultados obtidos na primeira metade da temporada, seria mais um no leque de potenciais candidatos a lutar pela conquista da camisola branca da Volta, aquela que distingue o melhor jovem em prova. Em jeito de provocação, quisemos propor esse exercício a Montez, e enquadrar a suas reais possibilidades nesta classificação com o contexto em que se desenrolou a corrida. O ciclista de Aldeia de Além demonstrou a mesma capacidade para ultrapassar a questão como para andar de bicicleta:

Não sei [se seria um dos fortes candidatos à vitória na classificação da juventude]. Talvez sim, talvez não, só mesmo tendo participado é que saberia se seria o vencedor ou um possível candidato. Talvez fosse, mas sem participar é uma incerteza.

O ciclista de Aldeia de Além a defender as cores nacionais na Volta a França do Futuro.

Bem longe de Portugal, era em terras gaulesas que Montez subia mais um patamar na sua evolução na sua ainda curta carreira como ciclista de estrada. E era ali, no maior palco da categoria Sub-23, onde as grandes estrelas do futuro se dão a conhecer ao mundo velocipédico; onde carreiras começam a ser trilhadas; onde sonhos se tornam realidade; subindo e descendo as mais míticas montanhas alpinas, contra os melhores do mundo do escalão. Assumindo a responsabilidade de ajudar os líderes da equipa a conseguirem o melhor resultado possível, Montez terminou a prova na 51ª posição, a 51:05 minutos do grande vencedor, e revelação da prova, Isaac Del Toro. Mas seria injusto falar do resultado individual do ciclista da Credibom / L.A. Alumínios / MarcosCar, quando para o próprio a grande vitória está na experiência vivida e adquirida em cada uma das nove etapas que compuseram a prova:

Foi um privilégio! Estar naquele leque dos seis selecionados já foi uma grande oportunidade, e depois puder correr com os melhores Sub-23 do mundo… Acho que foi mesmo uma grande oportunidade, e gostei bastante da experiência.

A época de estrada terminou pouco depois para Alexandre Montez, mas não sem antes dar o contributo à sua equipa no Grande Prémio Jornal de Notícias e na última corrida da temporada, o GP Mortágua – Pedro Silva.

Acho que retiro coisas bastante positivas. Algumas também menos boas, mas com essas aprendo para não voltar a cometer esses mesmos erros. Principalmente, penso que foi uma temporada de aprendizagem e de progressão neste novo meu desporto, digamos assim, que é o ciclismo. Eu não levava nenhuma expectativa para a época.

Alexandre Montez, campeão nacional de ciclocrosse Sub-23 em 2023. (Fonte: UVP-FFC)

Como se não bastasse o interessante currículo conquistado na estrada, Montez também “dá uma perninha” no ciclocrosse, onde não deixa o crédito por mãos alheias. Na temporada nacional 2022/2023, exibiu-se a grande nível entre a categoria Elite, conquistando um par de top-10 em três provas da Taça de Portugal e sagrando-se campeão nacional Sub-23, em Vouzela. Numa impressionante demonstração de versatilidade, este registo torna-se ainda mais relevante se considerarmos que esta foi a primeira incursão de Montez na modalidade. Um ano depois, voltou a fazer notar a sua presença no ciclocrosse, registando entre a categoria Sub-23 um sexto lugar na prova da Taça de Portugal Credibom de Paços de Ferreira, o quarto posto na jornada da Taça de Vila Real e um pódio (terceiro lugar) na derradeira prova da competição, em Ansião. A fechar a sua participação na temporada 2023/2024, não conseguiu a revalidação do título nacional de Sub-23, mas saiu de Abrantes com a medalha de prata ao peito. A aptidão para (mais) esta vertente do ciclismo é notória e surpreendente, considerando os largos anos (bem-sucedidos) que Montez dedicou ao triatlo durante a sua juventude, assim como o caráter mais técnico e explosivo quando comparado com o ciclismo de estrada.   

Não sei de onde vem essa aptidão. Eu sempre tive habilidade para a bicicleta. Quando era mais novo também fazia BTT. Isso também deve ter ajudado a criar uma certa técnica tanto para a estrada como para o ciclocrosse. Acho que foi uma mais-valia ter essa boa escola na juventude. E o ciclocrosse passa mais por uma preparação para a estrada. Porque nesta altura não há corridas, então procura-se o ciclocrosse para não estar tanto tempo sem ritmo de competição. Assim quando começarem as corridas de estrada já tenho algum ritmo. Além de que me ajuda também a manter uma dinâmica diferente nos treinos e a divertir-me.

Com a temporada de estrada já aí ao virar da próxima curva, é com alguma expectativa que a comunidade velocipédica olha para o que poderá Alexandre Montez fazer em 2024, e em que direção evolui a sua carreira. Ainda sem objetivos concretos definidos, o próprio aponta à corridas internacionais de início de temporada, deixando bem patente a sua ambição na modalidade:

Bem, sinceramente ainda não defini os objetivos em concreto, mas gostava de estar em melhor forma nas corridas que têm uma projeção internacional, como a Volta ao Alentejo, a Volta ao Algarve ou a Volta a Portugal. Gostaria de estar em melhor forma nessas corridas para também poder dar nas vistas.

Aproveitando a última deixa de Montez, na qual deixa no ar o desejo de atrair a atenção do panorama internacional para as suas qualidades, procuramos ir além e compreender quais são as aspirações do jovem para sua carreira no mundo do ciclismo. A resposta não surpreende, mas revela, novamente, a humildade pela qual pautou esta conversa:

Sim, dar o salto para maiores palcos é o meu maior objetivo. Mas lá está, é levar as coisas dia a dia, e se for, vou; se não for, não vou, também não há problema. O que me interessa é desfrutar da caminhada, é fazer as coisas bem e focar no objetivo. Tudo o que vier será por acréscimo e será bom. Não vale a pena criar muitas expectativas, porque o futuro é muito incerto. Eu não sei o que me poderá acontecer amanhã. O que eu tenho a certeza é que amanhã tenho um plano para cumprir, e vou cumprir esse plano. O que irei fazer para além disso é incerto, lá está. Tenho as coisas pelo momento e não pelo futuro.

Não poderíamos fechar esta entrevista sem a pergunta da praxe, para obter uma resposta também ela da praxe. Com pouco rigor estatístico, mas tendo do nosso lado o conhecimento empírico, esta é uma resposta transversal a 99% dos inquiridos, e Montez não será um outlier estatístico, quando questionado sobre a corrida que sonha alguma vez fazer.

Como muitos outros, é a Volta à França. É o maior dos palcos do ciclismo. Os Jogos Olímpicos também… acho que para mim a maior de todas é a Volta à França, mas talvez os Jogos Olímpicos sejam de uma importância semelhante, talvez a segunda ou a terceira, por isso sim, para mim também é um objetivo. Acho que qualquer atleta tem esse objetivo e eu não sou diferente.

No triatlo já não será provável, veremos se Alexandre Montez cumpre o sonho no ciclismo.

Resta-nos agradecer a disponibilidade e simpatia do Alexandre Montez ao conceder-nos esta entrevista.

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