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PCM Entrevista: Clément Braz Afonso

PCM Entrevista: Clément Braz Afonso

A Portuguese Cycling Magazine esteve à conversa com o talento francês Clément Braz Afonso, ciclista com raízes portuguesas, onde Clément se dá a conhecer e fala sobre o seu percurso no ciclismo. Uma entrevista PCM a não perder!

VERSION EN FRANÇAIS ICI.

Como é que surgiu o teu interesse pelo ciclismo? E quando é que começaste a competir e porquê?

O ciclismo está presente na minha família: o meu avô, o meu tio e o meu pai praticaram a modalidade apesar de não ter sido em competição. Desde jovem, eu jogava futebol (durante 7 anos), mas no fim do ensino médio (correspondente ao ensino básico em Portugal) alguns dos meus colegas de equipa foram para centros de formação ao mesmo tempo que iam para a escola secundária. Então, a equipa começou a ser menos competitiva e eu não queria conhecer as dificuldades após vários anos fantásticos! Além disto, o treinador do clube de ciclismo EV Bretenoux-Biars já dizia ao meu avô há muito tempo para me colocar em cima de uma bicicleta e eu também queria experimentar um desporto em que a condição física fosse o mais importante. Tudo isto contribuiu para que me iniciasse no ciclismo!

Como combinas os teus estudos em engenharia com a tua carreira no ciclismo?

Foi mais difícil ao início porque nos dois primeiros anos (competi em 2018 na UV Aube Champagne Charlott e em 2019 na Team Macadam’s Cowboys, enquanto tirava o ciclo preparatório em engenharia na Universidade de Troyes) tinha um horário igual ao dos restantes estudantes e ainda treinava entre 10h a 13h semanais e não estava presente em vários fins de semana… Tudo mudou quando entrei na Universidade de Belfort-Montbéliard e me transferi para a equipa CC Etupes. Graças aos meus primeiros resultados e a um estatuto especial da Federação Francesa de Ciclismo consegui obter um compromisso entre o ciclismo e a vida académica. Decidi adicionar 6 meses aos 3 anos de base do curso para ter mais tempo para treinar. Dessa forma, estava tudo bem, visto que eu precisava de estar organizado e motivado porque às vezes tinha de treinar entre os exames. Não estender muito os estudos foi uma minha escolha consciente. Em suma, a minha vida é treinar, comer, ir à faculdade trabalhar nos meus projetos e exames e no fim de semana é competir!

Clément a correr pela sua equipa de 2021, CC Etupes.
Foto: Lionel Vadam / ER.

Como te defines enquanto corredor? Algumas pessoas comparam-te a ciclistas como David Moncoutié e Kenny Elissonde, por exemplo.

Efetivamente sou um trepador, mas gosto de competir em todas corridas e tento ter um bom rendimento em todas, nenhuma é um problema para mim. Para ser profissional tens que ser um ciclista completo com força suficiente para ser bom no plano mesmo que sejas um trepador! As carreiras de Moncoutié e Elissonde são muito boas! Na verdade, o Moncoutié iniciou a carreira na mesma equipa que eu, a EVBB! A melhor coisa que espero é ter uma carreira como a dele, mas para já tenho que melhorar para chegar lá.

Podes falar acerca das tuas raízes portuguesas?

O meu avô é português e nasceu em Portugal. É oriundo de Pega, perto da Guarda. Veio para França quando tinha apenas 8 anos e apenas regressou a Portugal em 2017, comigo e com os meus pais. Os meus pais estão apaixonados pelo país, indo aí pelo menos uma vez por ano.

E o que conheces do ciclismo português?

Sei de vários ciclistas portugueses como o Nélson Oliveira, o Rui Costa e o João Almeida. Também conheço algumas corridas como a Volta a Portugal, Volta ao Algarve e a Volta ao Alentejo. Gostava de participar em todas, se me for possível.

Há umas semanas atrás venceste pela primeira vez numa corrida UCI, uma etapa da Volta ao Guadalupe. Foi o melhor momento da tua (curta) carreira?

Provavelmente, sim, porque foi a minha primeira vitória desde que estou na primeira categoria de elite do calendário francês. Estava à espera desta! Mas também recordo a minha primeira vitória no ciclismo. Eu era júnior e estava a competir numa corrida organizada pelo meu clube contra homens mais velhos. Marcou-me particularmente, porque nessa altura o meu primeiro treinador (deste clube) estava em coma no hospital e ganhei por ele. Quando acordou, ele contou-me que ouviu a sua mulher a dizer-lhe que eu tinha vencido a corrida. Foi um momento muito emocionante…

Como é competir num local tão exótico quanto o Guadalupe?

Foi uma experiência espetacular! Foi um privilégio que consegui graças à CC Etupes, especialmente ao Senhor Blanchot e às pessoas que nos ajudaram no Guadalupe. A corrida é muito diferente das corridas na França metropolitana. É como se fosse a Volta à França para os guadalupenses. Há muitas pessoas à beira da estrada a encorajar e a aplaudir os ciclistas. Para além disto, o facto de a corrida ser no final da temporada foi perfeito para me divertir com um bom tempo e puder desfrutar da beleza da ilha. O hotel foi reservado de forma perfeita pela organização. Agradeço pela receção e por nos terem colocado nas melhores condições possíveis!

Como é competir em algumas das subidas mais míticas do ciclismo mundial? Gostas de comparar os teus tempos com os ciclistas do World Tour (escalão máximo do ciclismo)?

Neste momento, eu compito sobretudo nas mais míticas subidas de França. Ainda não subi todas, mas é fantástico e é o que eu gosto mais. Em relação à segunda pergunta, não, não gosto de fazer isso especialmente quando é uma corrida de fundo e não um contrarrelógio. Muitas vezes, a situação é diferente, a posição da subida durante a etapa, o tempo, a situação de corrida…não é possível comparar.

Como foi a tua experiência de competir na Volta a França do futuro (corrida mais importante do escalão sub-23)? Foi diferente do que o que estavas habituado?

A minha experiência foi terrível. No primeiro dia, o pelotão alongou como poucas vezes tinha visto na minha jovem carreira…foi como se fossem os 2km finais de uma etapa de sprint durante toda a corrida. Caí a 10km da meta. Felizmente, não parti nada, mas a esperança de fazer uma boa classificação final já tinha ido… Nos dias seguintes, tentei recuperar, mas numa noite fiquei doente, tal como os meus colegas (provavelmente, foi uma intoxicação alimentar). Dormi apenas duas horas. O dia em cima da bicicleta foi terrível, mas consegui chegar ao final da etapa só com o pensamento de conseguir recuperar e vencer uma etapa na semana final. Pensava eu que a maioria das dificuldades tinham passado…mas NÃO! Mesmo com uma boa noite de sono, as pernas no dia seguinte estavam vazias e decidi desistir porque a oportunidade de vencer uma etapa no fim de semana final tinha terminado e a única coisa que estava a fazer era colocar o meu final de temporada em perigo. A principal diferença são os 10 dias de competição. De resto, não foi muito diferente. As equipas eram seleções nacionais, então os melhores ciclistas sub-23 do mundo estavam presentes. O nível provavelmente era um pouco mais alto do que as corridas de nível 2.u23 mas a diferença não foi enorme porque a maioria dos ciclistas corriam por equipas europeias, então nós conhecemos cada um deles. Estava completamente habituado a correr com eles.

O teu final de temporada foi muito forte, pensas que se os teus rendimentos no Ronde D’Isard, onde terminaste em 7⁰, e na Volta ao Guadalupe, onde finalizaste em 3⁰ com uma vitória de etapa, tivessem sido mais cedo terias tido a oportunidade de estagiar numa equipa Pro-Continental ou World Tour?

Honestamente, não sei… Talvez, mas penso que consegui uma “boa temporada” considerando que terminei o meu estágio em engenharia a meio de fevereiro e o meu treino real começou tarde. Cumpri o meu calendário. O meu maior desapontamento foi na Volta a França do futuro com os meus problemas. Se tivesse terminado no Top-10 da classificação geral, algo que penso que seria capaz, provavelmente teria um contrato profissional em 2022…

Clément, o melhor jovem da Volta ao Guadalupe.
Foto: Clément Braz Afonso.

O calendário amador francês, onde competes, é desconhecido da maioria dos portugueses. No entanto, ao longo dos anos tem lançado vários ciclistas de nível World Tour. Podes falar um pouco acerca do trabalho que é desenvolvido nesse escalão e como é competir aí?

Penso que a França é um país de bicicletas. É bom para progredir, com um programa de amadores fantástico (especialmente na categoria 1) e equipas. Tem muitas corridas todas as semanas e muitos ciclistas para fazer boas corridas com um bom nível. O calendário francês amador é seguido pelas equipas profissionais. Também é de ajuda a existência de várias equipas francesas profissionais, o que é bom para acreditar em poder ser ciclista profissional.

Braz Afonso com as cores da seleção nacional francesa.
Foto: Zoé Souillard / DirectVelo.

Pensas que podes seguir as pisadas de outros ciclistas lusodescendentes como Carlos da Cruz e Armindo Fonseca e chegar a uma das principais equipas francesas?

É essa a minha ambição.

O que se segue para ti em 2022?

Vou continuar a competir na primeira categoria do calendário francês de amadores, na equipa Philippe Wagner Cycling. É um projeto novo, mas com grande ambição! Também vou integrar um leque de 10 ciclistas seguidos pela Arkea-Samsic. Por fim, espero continuar a progredir e ter resultados que me permitam seguir para o escalão Profissional Continental ou World Tour em 2023.

Quais são os teus objetivos de carreira? E a corrida de sonho?

O meu primeiro objetivo de carreira é tornar-me profissional e participar numa das três grandes voltas.

Para terminar, que conselho darias a alguém que se sinta inspirado pela tua carreira?

Tens de saber com precisão o que queres fazer e, em consequência, o sacrifício necessário para tal. Eu, por exemplo, não posso ir a festas com os meus amigos ou ir de férias com eles no verão porque é quando estou a competir, nem na pausa de inverno do ciclismo, porque estou na escola. Parecia estranho e não compreendiam ao início, mas agora que o trabalho e o sacrifício começam a dar frutos eles já entendem. Vou terminar assim: Tu só tens uma vida. “O comboio não passa duas vezes” e há tempo para tudo!

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