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Os 5 monumentos do ciclismo: uma regra não escrita

Os 5 monumentos do ciclismo: uma regra não escrita

Os casos da Gent – Wevelgem, Strade Bianche e da Clássica de San Sebastián

O último ponto de análise será debruçado em perceber se corridas como a Gent – Wevelgem, a Strade Bianche e a Clássica de San Sebastián se podem enquadrar na denominação de “monumento”, tendo em consideração os requisitos supramencionados.

A Gent – Wevelgem é uma corrida que preenche perfeitamente o requisito da quilometragem, isto é, a clássica belga apresenta anualmente um traçado superior a 250 km’s, ligando as duas cidades que dão nome à corrida (embora nos últimos anos a cidade que acolhe a partida dos ciclistas seja Ypres). Normalmente, os participantes nesta competição são atletas capazes de ultrapassar alguns setores de pavê, mas, em grande medida, a corrida é decidida ao sprint (Peter Sagan, Tom Boonen, Mario Cipollini, Eddy Merckx e Rik van Looy são os recordistas de vitórias). Por outro lado, a clássica belga surge numa posição estratégica como uma das corridas de “preparação” para o 2º monumento da temporada: a Volta à Flandres. Por esta razão, entende-se que a Gent – Wevelgem não deve ser considerada um monumento pois seria adicionar mais uma corrida com esse estatuto na Bélgica (já existe a Ronde van Vlaanderen e a Liège – Bastogne – Liège) – violando o denominado requisito da espacialidade. Além disso, a Gent – Wevelgem surgiu na década de 30 do século XX (após a I Guerra Mundial) e, das três corridas em análise, é aquela que tem maior história, mas mesmo assim possui um número de edições abaixo dos 5 monumentos (que despontaram antes do 1º conflito mundial). Em síntese, a principal razão para que a Gent – Wevelgem não seja qualificada como um monumento não se deve tanto ao requisito da historicidade (considera-se ser o mais flexível dos requisitos), mas sim devido ao facto de já existirem duas corridas com esse estatuto na Bélgica e, mais concretamente, uma corrida com semelhanças em relação a esta.

© Sirotti – Peter Sagan, com a camisola de campeão do mundo, festeja a sua 3ª vitória na Gent-Wevelgem

O caso (particular) da Strade – Bianche é curioso: a clássica da região da Toscânia surgiu em pleno século XXI (em 2007), pela designação de Monte Paschi Eroica, ou seja, a corrida italiana não reúne condições do ponto de vista histórico. Se isso não bastasse, em 18 edições, a Strade – Bianche apenas ultrapassou a marca dos 200 km’s por 2 ocasiões (em 2015 e em 2024), o que significa que, do ponto de vista da sua extensão, a prova desobedece ao critério da quilometragem. O outro fator questionável prende-se com a espacialidade porque já existem dois monumentos a serem disputados na Itália e, com a adição da Strade – Bianche, passariam a ser três, levantando questões de “monopolização” de algo que já é tão tradicional com os monumentos do ciclismo. No entanto, a grande razão para que existam vozes no sentido de integrar a clássica da Toscânia no pedestal de monumento tem de ver com as suas características únicas, com a existência de setores de “strerrato” (gravilha/ terra batida) que embelezam e endurecem esta corrida. Porém, não é pelo facto de possuir características sui generis, reunir os melhores atletas do mundo e de ser fantástica de assistir que deve ser elevada no seu estatuto, isto é, a Strade – Bianche não necessita de subir hierarquicamente para passar a ser uma corrida “monumental”.

© Getty Images – Tadej Pogačar finaliza com estilo um solo arrasador na Strade Bianche deste ano

A Donostia Klasikoa, conhecida por Clássica de San Sebastián, é uma prova que obedece a certos pressupostos: na quilometragem e na sua localização. Em primeiro lugar, o perfil desta clássica disputada no País Basco apresenta sempre um número de quilómetros superior a 200 e, nas últimas edições, a resvalar (e até a superar) a marca dos 230 km’s. Por outro lado, não existe nenhuma clássica realizada em Espanha que tenha igual ou superior importância (e quilometragem) do que esta, ou seja, caso houvesse a possibilidade de escolher uma corrida em solo de “nuestros hermanos” para subir ao estatuto de monumento seria a Clássica de San Sebastián. Todavia, ainda existem lacunas para preencher: a Donostia Klasikoa é uma corrida que, do ponto de vista histórico, não é muito antiga pois surgiu já na década de 80 (posterior à queda do regime liderado por Francisco Franco); o seu posicionamento na temporada não é o melhor porque, ao contrário da maioria dos monumentos, a prova disputa-se nos finais do mês de julho, isto é, após o término do Tour de France e antes da Volta à Espanha e, por último, as características da clássica são idênticas às da Volta à Lombardia (com a presença de algumas subidas com mais de 5 km’s e com pendentes interessantes) e às da Liège – Bastogne – Liège (também com a presença de subidas curtas, mas com inclinações iguais ou superiores a 10%), permitindo extrair a ideia de que a adição da Clássica de San Sebastián à categoria de monumento seria uma mera transição entre o último monumento da Primavera (Liège – Bastogne – Liège) e o único monumento do Outono (o Giro da Lombardia) não só temporalmente, mas também no traçado da corrida.

© Donostia Klaikoa – Remco Evenepoel bate ao sprint Pello Bilbao para se sagrar tricampeão da Clássica de San Sebastián

Entende-se que a razão para que estas 5 corridas se enquadrem no estatuto de monumento deve-se à antiguidade associada a tais provas, à sua localização na mapa europeu, à quilometragem que cada clássica apresenta e ao nível de participantes. A UCI não apresenta uma regra clara e objetiva, dizendo que estas clássicas são monumentos, mas também é verdade que o órgão máximo do ciclismo atribui pontuação diferente (os ditos pontos UCI) a estas corridas em comparação com outras clássicas hierarquicamente inferiores (por exemplo, a pontuação atribuída a quem vença um monumento é, atualmente, de 800 pontos face aos 500 de quem conquiste a Gent – Wevelgem ou dos 400 de quem vença a Strade Bianche ou a Clássica de San Sebastián).

Em jeito de conclusão, o último ciclista português a terminar no pódio de um monumento foi Rui Costa com o 3º lugar obtido na Liège – Bastogne – Liège de 2016 e, antes disso, com o 3º posto na Volta à Lombardia em 2014. Será que, a curto-médio prazo, algum ciclista português reproduzirá ou, eventualmente, melhorará o feito realizado pelo campeão do mundo de Florença?

© Cor vos – Rui Costa, o 1º (e único) português a terminar no pódio de um monumento
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