Ciclocrosse, Nacional

Jerseygate: como o equipamento da seleção deixou os ciclistas dos escalões jovens fora da Taça do Mundo de CX

Jerseygate: como o equipamento da seleção deixou os ciclistas dos escalões jovens fora da Taça do Mundo de CX

Foi anteontem (dia 17 de janeiro) anunciada pela União de Ciclista Internacional (UCI) a lista de inscritos para a prova da Taça do Mundo de Ciclocrosse de Benidorm. Nessa lista constava, pela primeira vez na história da competição, o nome de atletas portugueses: Mário Costa, na categoria Elite Masculino; Joana Monteiro e Laura Simão (Sub-23), na categoria Elite Feminina (na Taça do Mundo as categorias Elite e Sub-23 Feminina estão integradas na mesma corrida); Tomás Mota, na categoria Sub-23 Masculino e o jovem Francisco Vitorino, na categoria Júnior Masculino. Este seria o grupo de atletas que iria fazer história para o ciclocrosse português…seria, porque já não o será. Ou, pelo menos, não com este número de integrantes, uma vez que apenas Mário Costa e Joana Monteiro irão manter a sua viagem até à Costa Blanca para competir oficialmente nesta prova. Passamos a explicar.

Horas após a publicação da lista de inscritos oficial por parte da UCI, a Portuguese Cycling Magazine soube, por fonte próxima de todo este processo, que os atletas de formação inscritos na corrida de Benidorm não poderiam afinal competir devido a uma questão de equipamento. A mesma fonte afirmou que a inscrição destes jovens teria sido, numa primeira instância, aceite pela Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC), mas que no dia de anteontem (no dia em que a lista da UCI foi publicada) chegou a confirmação por parte da FPC de que não poderiam participar na prova por não estarem a competir no âmbito da seleção nacional. Alegadamente, e de acordo com esta fonte, a própria FPC não foi capaz de esclarecer as dúvidas dos interessados.

De acordo com o artigo 5.3.010 do Regulamento da UCI, nas provas da Taça do Mundo de Ciclocrosse o uso do “…equipamento da seleção nacional é obrigatório nas corridas de Júnior Masculino, Júnior Feminino e Masculino Sub-23…”. No entanto, levantava-se aqui outra questão: Portugal não tem ainda constituída uma seleção nacional de ciclocrosse, pelo que estes atletas nunca poderiam competir na prova ao abrigo da seleção nacional.

Por outro lado, a atleta Laura Simão, apesar de pertencer ao escalão Sub-23, iria integrar a corrida de Elite Feminina (como explicado mais acima), corrida essa onde não é obrigatório o uso universal do equipamento nacional. Contudo, também aqui as dúvidas persistiam. A atleta do clube BTT Loulé/Elevis explicou inicialmente à Portuguese Cycling Magazine que muitas das ciclocrossistas Sub-23 que participam na Taça do Mundo com o equipamento do clube, fazem-no porque são atletas de uma equipa profissional UCI e estão pré-qualificadas através do ranking, pois só podemos participar numa prova da Taça do Mundo de Ciclocrosse através da seleção nacional ou se estivermos nos 50 primeiros do ranking mundial.. Desta forma, não posso estar inscrita por Portugal e correr com o equipamento da minha equipa por ser de formação, teria de ter autorização por parte da FPC e a cedência do equipamento.. No entanto, os regulamentos não são completamente claros nesta matéria e, à data de publicação deste artigo, a ciclista algarvia ainda mantinha a esperança de participar na corrida do próximo domingo.

Mas se não existe seleção nacional de ciclocrosse, haveria alguma alternativa possível que permitisse estes três atletas de formação participar na corrida de Benidorm? A Portuguese Cycling Magazine contactou a FPC de modo a obter mais esclarecimentos e tentar perceber os motivos por detrás deste impedimento.

Segundo a FPC, é comum que as inscrições feitas em provas internacionais, mesmo aquelas que não sejam disputadas pela seleção nacional, sejam feitas através das federações nacionais. Assim, as inscrições dos ciclistas foram feitas inicialmente porque é norma a Federação aceder aos pedidos dos atletas e/ou clubes para se inscreverem em corridas internacionais..

No que diz respeito à utilização do equipamento da seleção nacional por parte destes atletas, a FPC afirma que se rege pelo princípio de que “…apenas possa representar a Seleção Nacional, seja em que vertente da modalidade for, quem tenha sido convocado para o efeito pelo Selecionador Nacional, de acordo com os princípios de desenvolvimento desportivo definidos para cada uma das Seleções.. Garante a FPC que esta é a única forma de haver igualdade e justiça, com base em critérios desportivos. Se fosse possível “emprestar” um equipamento a um atleta para “representar” a Seleção isto significaria que teriam acesso à Seleção todos os atletas com disponibilidade financeira para deslocar-se a competições ao estrangeiro e não aqueles que, com base em critérios técnicos, fossem considerados os mais aptos desportivamente.”. Ainda, foi reiterado pela FPC que, tal como delineado no Plano de Atividades e Orçamento da FPC para 2023, tem como ambição iniciar os trabalhos da seleção nacional de ciclocrosse a curto prazo.

Infelizmente, este imbróglio regulamentar impediu a participação de Tomás Mota, Francisco Vitorino e, até à data, Laura Simão, na prova da Taça do Mundo de Ciclocrosse de Benidorm, mas a participação portuguesa na competição continua a estar garantida, nos pedais de Mário Costa e Joana Monteiro.  

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