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Jai Hindley concretiza o que Richie Porte e Cadel Evans sonharam!

Jai Hindley concretiza o que Richie Porte e Cadel Evans sonharam!

Há 20 anos, mais precisamente no dia 29 de maio de 2002, um jovem ciclista com uma história de vida incrível transformava-se no primeiro australiano a vestir a maglia rosa no Giro D’Itália. Falamos de Cadel Evans, cujo nome é familiar a todos os fãs do ciclismo em 2022, mas em 2002 era quase um anónimo. Após ter crescido numa isolada comunidade aborígene (povo que ao longo do século XX foi vítima de segregação social e do preconceito injustificado que existia nessa era) e ter sido atingido na cabeça por um cavalo, estando 7 dias em coma, acabou por superar todos os problemas físicos e sociais que assolaram a sua carreira, até chegar ao estrelato no Giro D’Itália 2002, após ter iniciado a sua carreira no mountain bike. Após vários dias em 2º na geral, já dentro da última semana, Evans assumiu a liderança da Volta a Itália na 16ª etapa após uma etapa extremamente dura, onde o anterior líder, Jens Heppner (uma espécie de Voeckler, Juan Pedro López, David Arroyo ou Alaphilippe da sua era) quebrou após liderar a prova por 10 dias. A liderança de Evans terminaria no dia seguinte, após uma etapa absolutamente brutal com final no Passo Coe. Evans tinha 26 anos.

Contudo, a história entre Evans, a maglia rosa e o Giro estava longe de terminar. Regressaria ainda em 2010, 2013 e 2014, tendo vestido a rosa nas edições de 2010 e 2014, mas, curiosamente a sua melhor presença foi em 2013 quando terminou no pódio da corrida, atrás de Nibali e Urán. A sua única vitória em etapa foi em 2010, na épica etapa do sterrato.

Por falar em 2010, foi precisamente nessa edição que surgiu o sucessor mais direto de Evans desde o seu surgimento, falamos de Richie Porte. Também ele vindo de um local remoto, pelo menos para o ciclismo (Tasmânia), não tardou em alcançar os holofotes do mundo de ciclismo e também no Giro D’Itália, prova na qual Evans despontou. Seria num dos dias mais anárquicos da história recente do ciclismo mundial, o dia em que 56 ciclistas partiram para a fuga na etapa de L’Aquila (local que ainda recuperava do terramoto de 2009 que tornou mundialmente famosa) na qual se imiscuiu o 6º classificado na geral e na altura líder da juventude, Richie Porte. De forma surreal, essa fuga ganhou 13 minutos ao grupo dos favoritos (onde seguia Evans, por exemplo) e o jovem Porte tornava-se a nova coqueluche do ciclismo australiano e líder da corrida. A sua estadia com rosa duraria 3 dias, mas conseguiria segurar a camisola branca até final e ser o vencedor final da juventude, para além de 7º na geral.

No ano seguinte ainda ajudou Alberto Contador a conquistar o Giro D’Itália que seria, contudo, retirado ao ciclista espanhol. Posteriormente voltaria ao Giro D’Itália por mais duas vezes que podemos descrever de forma fugaz como fugaz…

Mas a história da Austrália e a camisola rosa não se reduz a Hindley, Evans e Richie Porte. Entre 29 de maio de 2002 até ao dia de hoje uma enorme quantidade de australianos vestiu a camisola mais importante do ciclismo italiano, fruto da globalização e “deseuropeização” do ciclismo liderada pela própria Austrália num primeiro momento. A maior parte dos líderes australianos foram contrarrelogistas, fruto da enorme tradição do país no ciclismo de pista. Logo de seguida a Evans, foram dois antigos “pistards” a vestir a rosa. Falamos de Bradley McGee e Brett Lancaster que venceram os prológos do Giro D’Itália 2004 e 2005, respetivamente, tipo de prova perfeita para australianos. Posteriormente seria o fantasma, Robbie McEwen a vestir a rosa, fruto de uma vitória de etapa e bonificações, um ciclista distinto dos anteriores.

Após Porte em 2010, iria haver uma certa explosão com o surgimento da atual estrutura da Team BikeExchange – Jayco. Em 2014 tivemos 6 dias de Michael Matthews na liderança, após a vitória da na altura Orica-GreenEdge no contrarrelógio por equipas inaugural. Após essa liderança de Matthews, no dia em que perdeu a maglia rosa, Cadel Evans assumiu a camisola, no que seria a sua última sequência com a “rosa” (mais 4 dias). No ano seguinte, a Orica voltou a vencer o contrarrelógio por equipas inicial e Gerrans (que correu no Boavista a certa altura em 2003), Matthews e Simon Clarke iriam rodar entre si a liderança nos primeiros 4 dias de prova. E a separar-nos de Hindley só falta mesmo Rohan Dennis que vestiu a rosa por 4 dias em 2018.

Tudo isto nos leva ao feito histórico de Hindley, que apesar de ter concluído o feito inédito de ser o primeiro australiano a vencer o Giro D’Itália, fê-lo na sequência de uma história que se desenvolveu lentamente de um país que roubou o protagonismo aos países mais tradicionais do ciclismo.

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