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“Gosto de correr para ganhar” – Entrevista exclusiva com António Morgado

“Gosto de correr para ganhar” – Entrevista exclusiva com António Morgado

O ‘Zorro’ português sobre a primeira época como profissional, o porquê de não gostar das Clássicas e o objetivo da Volta à França do Futuro.

António Morgado tem apenas 20 anos, mas já é um dos melhores ciclistas portugueses da atualidade. Atualmente na UAE Team Emirates, a maturidade que tem demonstrado, como pessoa e como ciclista, pode enganar quanto a esta ser a sua temporada de estreia como ciclista profissional, mas não deixa margem para dúvidas quanto ao seu enorme potencial. Com a sua humildade característica, e uma visão dos acontecimentos que lhes concede facilidade, Morgado falou em exclusivo à Portuguese Cycling Magazine a partir da Bélgica, na véspera da Classic Brugge-De Panne, mas com a Volta à Flandres, o Paris-Roubaix e a restante temporada de 2024 no horizonte, com destaque para a Volta à França do Futuro.

English Version: “I like racing to win” – Exclusive interview with António Morgado

World Tour? Parece fácil

Nunca esperei estar neste nível. Tenho vindo a superar-me, mas não sou o maior.

António Morgado

A aventura de António Morgado na UAE Team Emirates começou no campo de treinos da equipa, em dezembro de 2023, onde não sentiu grandes dificuldades de adaptação. “Senti-me bem, acho que foi um bom training camp e fui bem acolhido”, pelo que agradece a ajuda dos seus companheiros de equipa portugueses, “não só ao João Almeida, mas aos irmãos Oliveira também”, sem esquecer os elementos do staff.

No treino em si, as dificuldades parecem ter sido sentidas mais pelos outros ciclistas, uma vez que, de acordo com Tim Wellens em entrevista ao Sporza, Morgado foi o único ciclista que conseguiu seguir Tadej Pogačar após 6 horas de um treino a 40 km/h. “Foi uma brincadeira em que houve um ‘picanço’ no final”, conta o ciclista português da mesma forma como compete: fazendo com que tudo pareça fácil. Ele pode não sofrer a treinar, mas em contrapartida ‘sofre’ de uma ansiedade especial na presença do líder da UAE Team Emirates. “Ele é o maior ciclista da atualidade neste momento, e um dos maiores da história. Quando estou ao lado de uma pessoa assim, fico nervoso e tenho um grande respeito. Mas ele é muito bom para os jovens” e assim, recebeu António Morgado dentro do espírito de companheirismo que o caracteriza.

Por seu turno, a humildade é a principal característica de António Morgado, como ciclista e como pessoa, o que faz com que lhe seja apontado, sobretudo pelos seus amigos e colegas de profissão, um desconhecimento das suas reais capacidades, ou mesmo a sua desvalorização consciente. Ele reconhece que “sempre fui assim, porque nunca esperei estar neste nível. Tenho vindo a superar-me, mas não sou o maior.”

Cumprido o treino em dezembro, chegou a altura de António Morgado se estrear no World Tour em janeiro. No Tour Down Under, a UAE Team Emirates ficou perto de vencer a classificação geral com Isaac del Toro, que Morgado vê como “um grande talento do ciclismo que aí vem”. Enquanto o talento mexicano venceu a segunda etapa, o talento português levou o prémio da combatividade na última etapa, e nem mesmo a rodar com aqueles ciclistas sentiu o nível do World Tour: “Estava-me a sentir muito bem, mas essa corrida não foi muito dura e o pessoal não foi tão agressivo. Não é a realidade do ciclismo [World Tour], mas gostei muito de correr na Austrália.”

Regressado do outro lado do mundo à Europa, nem mesmo a Covid-19 afetou a determinação com que o jovem português abordou o bloco de corridas no seu país. “Sentia-me bem e continuei a treinar arduamente”, mas os dias de competição em Portugal traduziram realidades contrastantes. “Na Figueira tive grandes sensações e acho que o 15º lugar não reflete essas sensações; o Algarve já foi bom para as sensações que tive. As corridas são assim” e falando de corridas, Morgado parece estar cada vez mais certo daquelas que prefere: “Em toda a minha vida, tenho sido um atleta regular em corridas por etapas. No ano passado não o fui, porque estive doente quase todo o ano. Talvez em corridas de uma semana consiga dar um toque.”

Foto: UVP-FPC / João Fonseca Photographer

“Não” às Clássicas

Não gosto muito do tipo de corrida, é completamente nervosa e não há muito respeito entre as pessoas.

António Morgado

Apesar da preferência declarada por corridas de uma semana, quis a UAE Team Emirates que as Clássicas da Primavera recebessem ‘o toque’ de António Morgado. “Disseram-me no início da época que devia experimentar estas clássicas, e eu vim experimentar”, pelo que a experiência tem-lhe provocado sensações mistas. Se, por um lado, tem aprendido muito com exibições de relevo, conseguindo o 2º lugar na Le Samyn, por outro lado, não parece que os bons resultados tenham desenvolvido nele uma paixão por estas corridas, como referiu em declarações após essa corrida em específico.

Primeiro, o 2º lugar de António Morgado na Le Samyn deixou-o satisfeito, mas também remeteu para o sentimento dos últimos dois Campeonatos do Mundo, de juniores na Austrália e de sub-23 na Escócia, onde foi batido por muito pouco. “Quando faço 2º, é porque houve normalmente uma pessoa mais forte. Não posso dizer nada, é aceitar que o atleta foi mais forte e trabalhar mais para a próxima”, sendo que o pensamento dianteiro assume preponderância na sua mentalidade, porque “até quando ganho, penso logo na próxima corrida.”

Segundo, o “não” de António Morgado às clássicas belgas com pavé causou preplexidade nos fãs de ciclismo, mas há todo um raciocínio por detrás da resposta rápida: “Não gosto muito do tipo de corrida. É uma corrida completamente nervosa, não há muito respeito entre as pessoas, e eu gosto mais de corridas com o mínimo de respeito. Por isso há muitas quedas, muitas pessoas 2/3 meses paradas porque partiram um braço, como aconteceu com o Rui [Oliveira]. No fundo, acho que estas corridas não se adequam muito a mim.”

Como todos nós temos de fazer coisas que não gostamos nas suas vidas, qual será o segredo para sermos bons em algo que não gostamos? “Nestas corridas tento não arriscar, por isso é que estou sempre um pouco mal colocado. Mas estas corridas são para pessoas que percebem como as coisas funcionam, porque fizeram formação aqui [na Bélgica] ou já têm 3/4 anos de experiência. Eu sobrevivo, vou passando e tento nunca desistir: tento sempre entrar no grupo seguinte e no depois desse.”

Foi com espírito de sobrevivência e também de sacrifício que António Morgado passou da teoria à prática, estreando-se na Omloop Het Nieuwsblad e obtendo o 25º lugar, bem integrado no grupo que lutou pela vitória. O mesmo espírito acabou por refletir-se na forma como Morgado correu, que fez lembrar outro ciclista português: “Andei sempre em último do pelotão, mas nesse dia estava com força para passar as pessoas e juntar os grupos. Estava-me a sentir muito bem, e fiquei contente com a minha prestação!”

À medida que as principais clássicas se aproximam, o “não” de António Morgado admite algumas exceções, especialmente quando confrontado com a imponência dos monumentos. “Sinto motivação para os correr, mas o meu objetivo vai ser ajudar a equipa e tentar acabar as corridas”, afirma com moderação, pois está consciente das particularidades da Volta à Flandres e do Paris-Roubaix, que “não são parecidos com as clássicas que fiz até agora, porque têm menos 2 horas”, e de que “esta preparação demora anos a construir.”

Foto: AFP

Um sonho francês

Gosto de correr para ganhar! Não só eu, mas também na minha equipa.

António Morgado

Com muita preparação, sonhar torna-se grátis e António Morgado tem vários sonhos: “A longo prazo, gostava de ganhar um monumento, e também gostava de lutar pelo top-10 numa grande volta. Esses são os meus principais sonhos e se alguma vez conseguir cumpri-los, ficarei feliz.” Para conquistar os sonhos é preciso garra, que o jovem português considera como “o atributo que mais desenvolvi” ao longo da sua ainda curta carreira. Em contrapartida, “os atributos que ainda tenho de desenvolver são as subidas e… não ter medo de falar (risos).”

O tempo está do lado de António Morgado, até porque depois da ‘sopa’ de clássicas, vem o ‘prato principal’ da sua temporada: a Volta à França do Futuro. “Vou ao Avenir não tanto para me mostrar, mas para me surpreender a mim mesmo”, e no que toca a representar Portugal, essa surpresa pode ser antecedida por outra ainda maior, uma vez que a campanha de clássicas de Morgado tem levado o seu nome a figurar nos debates sobre o duo que vai representar Portugal na prova de estrada dos Jogos Olímpicos. O próprio reconhece que “o percurso é para uma verdadeiro homem de clássicas” e por isso aguarda, com todos os seus compatriotas, pela decisão do selecionador José Poeira.

As interações de António Morgado com os seus compatriotas têm algo de inusitado. Num raro cruzamento entre ciclismo português nacional e internacional, um grupo de ciclistas portugueses conta que, enquanto preparava a Volta a Portugal do ano passado, encontrou o jovem português a treinar na Serra da Estrela para o seu objetivo da Volta à França do Futuro, e que ele ‘fê-los sofrer’! Porém, Morgado nega categoricamente que tal sofrimento tenha ocorrido: “É mais eles a brincarem e a meterem-se comigo (risos). Não os meti a sofrer, acho que eles só estavam a fazer o treino deles e eu estava a fazer o meu. Mas é tudo malta cinco estrelas e gostei muito de treinar com eles.”

Mais importante do que as brincadeiras de circunstância, o contacto com os ciclistas nacionais deixa-lhe uma imagem positiva do ciclismo português. “Gosto dos ciclistas e gosto do ciclismo”, ainda que admita que o seu conhecimento das corridas de elites em Portugal é limitado, uma vez que apenas correu pela formação da ABTF Betão – Bairrada em juniores.

Independentemente das corridas que faça e dos objetivos que cumpra, este ano e nos seguintes, há uma mentalidade que explica o sucesso madrugador de António Morgado e que promete continuar a expandi-lo ao mais alto nível do ciclismo. “Adoro correr com boas pernas e gosto de lutar sempre pela vitória. Se não lutar, estar perto ou sentir-me perto. Gosto de correr para ganhar! Não só eu, mas também na minha equipa.”

Foto: UVP-FPC

Para concluir, propomos a António Morgado que deixe uma qualquer mensagem, e ele vira-se para a família: “Aos meus pais e ao meu irmão, que sempre me apoiaram.” Com este importante apoio, mais o apoio dos fãs, António Morgado reune todas as condições para tornar os sonhos, seus e dos portugueses, realidade.

Agradecemos a António Morgado e à UAE Team Emirates a disponibilidade para nos conceder esta entrevista e desejamos-lhes boa sorte nos próximos desafios!

Foto de capa: Sprint Cycling Agency

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