Opinião

Como era o mundo do ciclismo quando o Sporting foi campeão pela última vez?

Como era o mundo do ciclismo quando o Sporting foi campeão pela última vez?

“Como era o mundo quando o Sporting foi campeão nacional pela última vez”? Uma pergunta que tem sido recorrente nas últimas semanas. Muitos artigos foram escritos acerca desta matéria, mas nenhum respondeu ao que realmente me interessava… Como era o mundo do ciclismo da última vez que o Sporting foi campeão? Valverde já era um campeão? Qual era a marca das fraldas de Remco Evenepoel? Patrick Lefevere já despedia ciclistas? Todas as perguntas que interessam serão respondidas nas próximas linhas.

George Hincapie (US Postal), em primeiro plano, foi 6⁰ classificado no abençoado Paris-Roubaix de Abril de 2002.

Portanto, o Sporting Clube de Portugal foi campeão pela última vez a 28 de abril de 2002, pelo que será precisamente a esse mês que vamos recuar. Nesse dia foi disputada a Amstel Gold Race de 2002, vencida por Michele Bartoli. O então campeão do mundo, o espanhol Óscar Freire, terminava em 5° lugar. Meses antes, Freire tinha-se sagrado campeão mundial em Portugal, na cidade de Lisboa! Quem não gostaria de voltar a ver os campeonatos do mundo nas estradas nacionais?

Sérgio Paulinho e Hernâni Broco em 2002.

Também foram nesses campeonatos do mundo que a atual jovem promessa da L.A. Alumínios, Sérgio Paulinho, começou a despontar, ao terminar em 5⁰ na vertente de contrarrelógio, na categoria de sub-23. A L.A. que se tornaria um ponto em comum entre Sérgio e Hernani Broco, actual director desportivo da formação sediada em Paio Pires. Mas, por falar em sub-23… sabe quem era o campeão espanhol em título nesta categoria, da última vez que o Sporting foi campeão? É outra jovem promessa do ciclismo atual, Alejandro Valverde! É verdade, um dia Valverde já foi ciclista sub-23 e na altura dava os primeiros passos como profissional na Kelme – Costa Blanca.

Alejandro Valverde, campeão espanhol sub-23, ao ataque. (Foto de 2001)

Em Abril de 2002 aconteceu outro fenómeno raro: os fãs de ciclismo mais jovens podem não acreditar, mas houve um Paris-Roubaix com chuva! O quê?! Um Paris-Roubaix com chuva? Precisamente, como podem verificar na foto abaixo (e também na foto de capa deste artigo). Johan Museeuw venceu essa edição enlameada da Paris-Roubaix e no final da corrida nomeou o seu sucessor. Alguma pista de quem é? Valverde?! Não! Era, apenas e só, um tal de Tom Boonen… Esse jovem belga, que nessa tarde infernal terminou em 3⁰, venceu tão somente 4 edições do Inferno do Norte!

Tom Boonen terminou no pódio na sua primeira participação no Paris-Roubaix, corria o ano de 2002.

Nos dias seguintes ao Sporting ser campeão nacional iria iniciar-se a Volta à Itália de 2002. Essa edição do Giro foi particularmente especial pois um jovem talento entrou na terceira semana de camisola rosa. Posso garantir-vos que não é João Almeida, mas tinha características semelhantes ao português. Era Cadel Evans! Infelizmente para o jovem australiano, a camisola acabou por ser por si vestida apenas por um dia, terminando aquela corrida na décima quarta posição. Nesse Giro assistiríamos à primeira vitória de Paolo Savoldelli na grande volta do seu país. Na edição de 2002, Mario Cipollini venceu 6 etapas, que contribuem de sobremaneira para o seu recorde de 42 vitórias no Giro.

Cadel Evans com a maglia rosa envergada, em 2002.

O ciclismo português também vivia momentos de grande fulgor, com José Azevedo a ser 6⁰ no Tour de France. Em plena era de domínio de Lance Armstrong, que havia vencido as últimas 4 edições do Tour, o homem que mais diretamente desafiava o norte-americano era Joseba Beloki e a sua O.N.C.E. – Eroski. Infelizmente para eles, os melhores esforços de Azevedo, Galdeano e Beloki não chegaram para a força de Armstrong e da mítica US Postal. Tal não apaga o melhor resultado de um ciclista português no Tour de France desde os tempos de Joaquim Agostinho! Em 2004, dois anos volvidos, o próprio Azevedo superaria o seu resultado ao terminar em 5⁰.

José Azevedo corria na espanhola O.N.C.E – Eroski, uma das principais adversárias da US Postal de Lance Armstrong.

Ver fotografias de ciclismo profissional nessa altura é um pouco assustador, visto que os capacetes eram raros. Tirando no Paris-Roubaix, que aí todos utilizavam capacete, porque… pronto, é o Paris-Roubaix. Os capacetes, que hoje em dia encaramos como uma fundamental ferramenta de segurança, só começaram a ser obrigatórios em 2003, após a dramática morte de Andrey Kivilev. Inicialmente os ciclistas poderiam retirar os capacetes nos 5 quilómetros finais da etapa, desde que fossem a subir. Contudo, rapidamente passou a ser obrigatório utilizar sempre, algo que felizmente perdura até hoje!

A batalha entre Beloki e Armstrong no Tour de France de 2002 foi das últimas sem capacetes.

Em Portugal, as equipas que dominavam eram a Milaneza – MSS, a LA Alumí­nios – Pecol ou a Porta da Ravessa – Zurich. O eterno Rui Sousa finalizou no pódio da Volta a Portugal de 2002, pela primeira vez na sua carreira. Este foi um dos muitos lugares honrosos na Volta conquistados pelo ex-ciclista natural de Barroselas. Também o ciclista do povo, o homem que marcou uma geração em Portugal, brilhava em 2002. Falo de Cândido Barbosa, vencedor da Volta ao Algarve do ano de 2002 entre muitos outros resultados de destaque.

O Foguete da Rebordosa, Cândido Barbosa, vence na chegada a Fafe na Volta a Portugal em bicicleta de 2003.

E era assim o mundo do ciclismo quando o Sporting foi campeão pela última vez! 19 anos volvidos, o Sporting volta a ter oportunidade para ser campeão nacional. Vivemos num mundo muito diferente, mas nem tudo mudou. Valverde continua a mexer nas corridas como fazia em 2002, Sérgio Paulinho continua a competir no pelotão nacional com a vontade de um jovem que inicia carreira e nós, fãs de ciclismo, iremos continuar apaixonados pela nossa modalidade tal como os adeptos do Sporting continuaram apaixonados pelo seu clube durante estes 19 anos.

Equipa do Sporting que se sagrou campeã nacional na temporada de 2001/2002.
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