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“A Volta ao Algarve é melhor que algumas corridas World Tour” – Entrevista com Tiesj Benoot

“A Volta ao Algarve é melhor que algumas corridas World Tour” – Entrevista com Tiesj Benoot

O ciclista belga da Team Visma | Lease a Bike antevê a Volta ao Algarve, define aspetos a melhorar para as Clássicas e recorda a situação dramática de Nathan Van Hooydonck.

Tiesj Benoot não é um ciclista de vitórias, mas um ciclista que vale vitórias. Efetivamente, venceu apenas quatro provas, ainda que bastante importantes, em toda a sua carreira, mas contribuiu para muitas mais vitórias, ainda mais importantes, das equipas por onde passou. Na sua terceira temporada com a Team Visma | Lease a Bike, promete formar uma tripla temível com Wout Van Aert e Christophe Laporte nas Clássicas, que terão início no final deste mês. Antes desse momento decisivo, as abelhas vêm a Portugal afiar os ferrões, nos cinco dias com que a Volta ao Algarve vai ‘picar’ os seus ciclistas.

“A Volta ao Algarve vai ser a minha primeira corrida da temporada”, o que representa, para Tiesj Benoot, o regresso a uma prova que já não corria desde 2017, quando era mais jovem e vestia as cores da Lotto Soudal, mas que nunca deixou de apreciar. “Eu estive bem no Algarve nos primeiros anos da minha carreira profissional, e gostei do muito da região e do país. Estou ansioso por voltar após… sete anos, como o tempo voa!” Voando até 2024, “consigo pensar em muitas razões” para a Team Visma | Lease a Bike fazer esta corrida, o que o leva a descrever as particularidades da ‘Algarvia’ “É uma corrida de preparação com um bom percurso, duro mas não muito duro, normalmente com boas condições meteorológicas, e o facto de ficarmos num ou dois hoteis torna tudo muito calmo”, destacando ainda a sua posição favorável no calendário.

Para o ensaio antes dos grandes concertos da temporada, a Team Visma | Lease a Bike traz um coletivo de grande nível, que mistura a liderança de Wout Van Aert, de Sepp Kuss e do próprio Benoot, com a juventude de Milan Vader e Per Strand Hagenes, não esquecendo a irreverência de Jan Tratnik e a experiência de Julien Vermote. “Trazemos uma equipa forte, mas se olhares para a lista, tens muitas equipas que trazem os seus melhores corredores. De facto, foi o que experienciei em 2015, quando o Algarve foi uma das minhas primeiras corridas [como profissional]. Não é World Tour, mas o nível da lista de participantes é melhor que em algumas corridas World Tour.”

Benoot correu a Volta ao Algarve em 2015, 2016 e 2017 na Lotto Soudal (@Filip Bossuyt).

No capítulo pessoal, Tiesj Benoot chega à Volta ao Algarve depois de um inverno algo atribulado. “A minha preparação estava a ir muito bem, até 31 de dezembro. Aí apanhei Covid, não treinei por 7 dias e também tive febre muito alta, foi uma m*rda” e assim, não participou nem na Vuelta Ciclista a la Region de Murcia nem na Clásica Jaén, preferindo tirar estes últimos dias para retomar o tempo perdido na preparação.

O inverno da Team Visma | Lease a Bike ficou também marcado pela novela da transferência de Cian Uijtdebroeks, que não afetou uma receção positiva pela estrutura da equipa. “No geral, ele é um ciclista jovem muito talentoso e motivado. Se vires o que ele fez no ano passado, top-10 na sua primeria Vuelta, penso que tem um futuro radiante pela frente e a equipa vai apoiá-lo” e Tiesj Benoot partilha da mesma curiosidade de todos os fãs de ciclismo para ver o seu compatriota em ação. “Estou também curioso para ver quais são os seus limites, visto que há três anos ele estava a correr em juniores!”

Antes do sol de inverno, a ainda Team Jumbo-Visma passou por um verão chuvoso, devido aos problemas cardíacos de Nathan Van Hooydonck que quase lhe custaram a vida num acidente rodoviário e colocaram um ponto de final antecipado na sua carreira. Nessa hora mais negra, os fãs de ciclismo recordaram Van Hooydonck principalmente como “um ciclista chave nos planos da equipa, tanto nas Clássicas como no Tour de France”, mas Tiesj Benoot admite que todos os dias sente a falta do seu antigo companheiro de equipa, que considera como um amigo. “Perdi um amigo no ciclismo”, afirma com grande mágoa na sua voz e assim continua o emotivo relato: “Ver algo assim acontecer tão perto deixou-me em choque por uma semana, e quando ele me disse que tinha de deixar o ciclismo, foi um segundo choque. Estou muito feliz que ele ainda esteja aqui! Tivemos alguns jantares depois, em conjunto e com as nossas famílias, portanto vamos continuarmo-nos a ver mas é muito triste que não possamos mais correr juntos.”

A importância da família para Tiesj Benoot pesa na sua decisão de continuar a residir na Bélgica, enquanto muitos dos seus compatriotas se mudam para países mais a sul, para escapar ao mau tempo, procurar subidas mais longas ou até ter maior privacidade no dia-a-dia. “É difícil estar longe de casa, porque tenho uma filha e outro que vai nascer, mas a minha mulher voa muito [com ela], para que eu possa ver a minha família.” Mesmo continuando a residir no seu país, a vida de ciclista profissional obriga-o a muitas viagens prolongadas, mas isso apenas reforça a sua decisão. “De qualquer das formas, temos muitos campos de treinos com a equipa, portanto gosto de estar em casa no meio, gosto de ter a minha família e os meus amigos por perto, e para a minha família é bom quando eu não estou lá, porque podem estar em casa na Bélgica e não num apartamento qualquer no sul de França ou em Andorra”. Por todas estas razões, “a minha escolha é definitivamente ficar na Bélgica.”

Benoot celebrou a vitória na Kuurne – Brussel – Kuurne 2023 em equipa (@Getty Images).

Por ter nascido, além de continuar a residir, em Ghent, no coração da Flandres, Tiesj Benoot não hesita em escolher a sua corrida favorita. “Eu cresci com a Volta à Flandres, costumava ver a corrida na televisão e no parcours com o meu pai. Talvez não seja a corrida que me assenta melhor, mas é a corrida que sonho ganhar.” Por palavra de especialista, o sonho cumpre-se não apenas no parcours de treino habitual, que coincide em grande medida com a clássica, mas também noutros voos mais altos. “Para preparar as clássicas, acho que também é bom fazer alguns campos de treino fora da Bélgica, com melhor tempo, e procurar subidas mais longas. Também é assim que preparamos a equipa para o Tour de France: primeiro na Serra Nevada, depois em Tignes após o Dauphiné.”

Apesar de um início fulgaz da Team Jumbo-Visma na temporada de Clássicas de 2023, com cinco vitórias por quatro ciclistas diferentes, os monumentos da Volta à Flandres e do Paris-Roubaix não correram de feição à equipa neerlandesa. “Acho que corremos de forma um pouco diferente das clássicas em que tivemos sucesso. Eu não estive no Roubaix, mas vi na televisão e tivemos muito azar, primeiro o Christophe e depois o Wout, que fez com que não conseguissemos ganhar a corrida. Nunca saberemos, mas acho que, sem os furos, teríamos estado muito perto de ganhar.” Porém, Benoot sabe, como ninguém, que numa equipa desta categoria não podem haver desculpas: “Dito isto, tentamos sempre treinar melhor e estar mais fortes, portanto espero que este ano possamos estar ainda melhor que no ano passado e, assim, talvez o nosso dia chegue. O grande objetivo agora é ganhar um monumento.”

Tiesj Benoot contribuiu, em grande medida, para esse sucesso inicial da Team Jumbo-Visma, ao vencer a Kuurne – Brussel – Kuurne, na qual vai tentar revalidar o título este ano. “Gostava de ganhar outra vez, mas nas clássicas, as táticas são construídas à volta da possibilidade de ganhar com todos os corredores. Foi isso que mostrámos no ano passado.” Desta forma, uma tática de sucesso requer um grande compromisso da parte de cada corredor em torno do coletivo, o que leva Benoot a ver com bons olhos os diversos cenários. “Se eu tiver a oportunidade de ganhar uma corrida, os meus companheiros vão-me proteger. Mas o Wout tem as maiores chances nas grandes corridas, pelo que se eu precisar de trabalhar para ele, fá-lo-ei com prazer. Ele é um grande amigo meu e fico muito feliz quando ganhamos corridas em equipa.”

Benoot promete ajudar Wout Van Aert a ganhar, como na etapa 4 do Tour 2022 (@Tour de France/Velon).

Por último, pensando também nos objetivos coletivos da Team Visma | Lease a Bike – vencer o Tour, a Vuelta e um monumento – Tiesj Benoot deseja, mais do que “vencer uma boa corrida”, competir em toda a época no seu melhor nível, afirmando que “sem quedas, lesões ou doenças, vou ficar bem.” Questionado sobre o impacto da Volta ao Algarve nesses objetivos, tanto coletivos como individuais, a expetativa é positiva.

Agradecemos a Tiesj Benoot e à Team Visma | Lease a Bike a disponibilidade para nos conceder esta entrevista e aguardamos para vê-los em ação na Volta ao Algarve!

Foto de capa: Team Visma | Lease a Bike

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