Estrada, Nacional

A Pandemia na Volta

A Volta a Portugal chega amanhã à Senhora da Graça, e ao que tudo indica chegará no domingo a Viseu. Isto é de assinalar, porque a certa altura a corrida podia ter-se encaminhado para um final antecipado. O abandono coletivo da Rádio Popular-Boavista, por conta de dois casos positivos entre ciclistas, chocou os fãs portugueses, até porque Daniel Freitas tinha, no dia anterior, conquistado a camisola amarela.

Até ao topo do Monte Farinha, teremos certamente um grande espetáculo, mas também muito público, o que poderá representar um risco para os atletas. Para relembrar que esse risco está bem presente na Volta a Portugal, decidimos falar com alguns ciclistas que assistiram, quer afastados, quer de perto, ou até na primeira pessoa, ao desenrolar da pandemia dentro da bolha sanitária da prova.

Em 2020 não existiram casos entre corredores. Logo, o que terá corrido mal este ano, ao ponto de 3 equipas e um total de 23 ciclistas abandonarem a Volta? Terá o protocolo sanitário (bem como a sua aplicação) mudado? Desde logo, percebemos que no ano passado existiu um maior rigor dentro da chamada zona 0 (zona reservada aos “indivíduos essenciais ao funcionamento logístico e desportivo” da Volta), com limites claros fixados tanto nas partidas como nas chegadas. A caravana da Volta esteve envolta numa verdadeira bolha de segurança, na qual matinha contacto mínimo com o exterior.

Apesar do aligeiramento das medidas do ano passado para este ano, os ciclistas estrangeiros com quem conversámos não apontam diferenças significativas entre o protocolo sanitário da Volta a Portugal e de outras corridas em que participaram, o que faz sentido, visto que todos se baseiam nas recomendações da União Ciclista Internacional (UCI). Houve até um cuidado acrescido na ‘Grandíssima’ com a realização dos testes PCR aos ciclistas no prazo mais próximo possível do início da prova.

Nos últimos meses, assistiu-se a um relaxamento quer formal quer informal dos cuidados sanitários a nível mundial, que sem dúvida se estendeu também à Volta a Portugal. “Claramente houve uma quebra de segurança e rigor do ano passado para este ano”, conta-nos um atleta. Ele explica isto com “a pressão de voltar a normalidade e ter público nas partidas e chegadas”, o que levou a organização a permitir uma maior proximidade entre público, atletas e staff.

O contacto entre ciclista resume-se aos momentos partilhados nos hotéis, nomeadamente no bufê e nos elevadores, mas sempre com máscara. É sabido que nos momentos de acalmia de cada etapa, os corredores aproveitam para conversar com os seus amigos no pelotão, mas o curto tempo das conversas impede que constituam verdadeiro risco de infeção. Confiando que todos os companheiros seguem o protocolo e como tal estão seguros, não existe motivo para se usarem máscaras nos autocarros.

Mas será que todos seguem o protocolo? Um dos ciclistas com quem conversámos defende que “deve-se exigir mais às equipas, já que em alguns casos os testes não são realizados a tempo, como aconteceu com algumas equipas que tiveram de abandonar a Volta”. Felizmente, o seu colega de quarto detetou os sintomas da doença e alertou o médico. Nessa situação, os testes foram rapidamente realizados a todos os ciclistas e staff da equipa. Graças a esta prontidão, a equipa pôde continuar em prova, ainda que sem os dois ciclistas que estavam no mesmo quarto.

Foram vários os abandonos da Volta a Portugal por razões sanitárias. Em todas as respostas que obtivemos dos ciclistas que passaram por isso, destaca-se um sentimento: Frustração. Depois de muito tempo e esforço despendidos na preparação para um grande objetivo como a Volta a Portugal, tudo se perdeu de um momento para o outro. Mas há que “seguir em frente, cumprir a quarentena e esperar com calma que tudo passe”.

Para que a Volta possa decorrer dentro da “nova normalidade”, o bom comportamento do público na estrada é crucial. Quando os ciclistas rodam a alta velocidade, não existe qualquer perigo, porém as partidas, chegadas e terrenos montanhosos requerem cuidados acrescidos. A todos os adeptos que se deslocarão amanhã à Senhora da Graça para apoiar os ciclistas, apelamos que usem máscara e se mantenham na berma da estrada, relativamente afastados dos ciclistas.

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