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PCMScience #2: A desqualificação de Quintana e o sensacionalismo do doping

PCMScience #2: A desqualificação de Quintana e o sensacionalismo do doping

Há poucas horas, foi noticiada a desqualificação de Nairo Quintana do Tour 2022, devido a dois testes positivos à substância tramadol (e de dois metabolitos derivados deste), que é um analgésico opiáceo.

Os dois positivos surgem na sequência do programa de testagem implementado pela UCI a este composto específico e infringem assim o protocolo médico da organização que tutela o ciclismo a nível mundial.

É verdade que o uso de tramadol está proibido pela UCI desde 1 de março de 2019 e está igualmente na lista de observação da WADA (Agência Mundial Anti-Dopagem), mas convém, no entanto, referir que, à luz das normais atuais da UCI (mas também da WADA), estes positivos não constituem uma quebra do protocolo anti-dopagem, como muitos meios de comunicação social, aproveitando a mais recente onda mediática do panorama velocipédico nacional, e sedentos de polémica, rapidamente se apressaram a noticiar.

Mas qual a razão? O tramadol é um analgésico sintético prescrito no tratamento da dor moderada e severa, sendo que atua ao nível do sistema nervoso central (que inclui órgãos como o cérebro ou a medula espinal), impactando a forma como este responde à dor. Ora, devido ao seu modo de ação, são comuns sintomas secundários como tonturas, sonolência ou perda de atenção. É precisamente pela possibilidade de ocorrência destes sintomas que a UCI tem um programa de monitorização do tramadol.

É fácil compreender que, em corridas feitas a alta velocidade, com pelotões na ordem das centenas de ciclistas, algum elemento que apresente estes sintomas pela toma do tramadol rapidamente provocaria quedas e possíveis danos físicos graves aos seus colegas.

Até ao momento, não existem provas sólidas de que o tramadol tenha algum potencial efeito benéfico no desempenho desportivo, apesar dos diversos estudos que já têm sido feitos neste sentido. Apesar disso, a WADA encomendou, em 2019, um estudo à Universidade de Kent de forma a perceber se, de facto, esta substância deve, ou não, ser regulada.

Quem sabe se nos próximos anos, e à luz de resultados científicos mais robustos, se conclua que o tramadol deve ser, de facto, considerado uma substância dopante. Mas, até à data, não é isso que acontece.

Por isso mesmo, Nairo Quintana não infringiu qualquer norma anti-doping, nem foi desqualificado por doping.

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